Pedras e Demônios pd53 | Page 161

os argumentos apresentados pela oposição de direita e os organis- mos internacionais contrários ao curso tomado pelo governo. Segundo Mamede, a boa situação econômica ajudou a enfren- tar o maior desafio político da coalizão de esquerda – aumentar os haveres dos trabalhadores e dos benefícios sociais (um objetivo declarado do PS e uma obrigação absoluta para o Partido Comu- nista e o bloco de esquerda) –, ao tempo que se respeitam as nor- mas orçamentárias da União Europeia (uma obrigação absoluta para o PS). Mas também assinala que, apesar do crescimento, o problema fundamental da disciplina orçamentária constante per- sistiu e foi abordado pelo governo socialista “em grande medida à custa de recortar o investimento público e atrasar a restauração de serviços coletivos”. Esta tese é confirmada por numerosas notícias sobre deficiências no Estado de Bem-Estar Social e as greves em setores públicos como a saúde, a educação e a Justiça. Além da situação econômica favorável, outra particularidade do panorama político em Portugal é a aliança de esquerda. Desde a Revolução dos Cravos, em 1974, que levou o país ao fim da guerra colonial, à democracia e ao desenvolvimento econômico acelerado, não houve mais movimentos de ultradireita, xenófobos ou naciona- listas significativos. Isto tampouco mudou nas dramáticas crises econômicas dos primeiros anos da democracia, quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) interveio no país em 1977 e em 1983. Assim como na crise do euro, durante a qual a troika lhe impôs um programa de ajuste muito doloroso (2011-2014), houve sinais de uma viragem à direita na sociedade. Ao contrário, a maior mani- festação de protesto contra o governo de direita de então e a troika, em setembro de 2012, surgiu do movimento de trabalhadores pre- carizados, devido seu gigantesco êxito, sobretudo graças à onda de solidariedade que mobilizou o país, de norte a sul. Enquanto isso, a oposição conservadora-liberal está em crise. Isto porque o êxito do governo do Partido Socialista provocou a perda de grande parte da credibilidade dela. Em dezembro de 2018, as forças de direita tentaram organizar ações no estilo dos “chale- cos amarelos” franceses. Nos pequenos protestos, com pouca par- ticipação, sem dúvida, houve mais policiais e jornalistas que mani- festantes, tendo terminado em um fracasso lamentável. Como se deve entender esta imunidade de Portugal frente às agitações da direita? Está, por um lado, na história do país. A dita- dura de direita, sob a qual o país permaneceu na pobreza, o sub- desenvolvimento e uma rígida separação de classes, conta com um Uma esquerda exitosa 159