os argumentos apresentados pela oposição de direita e os organis-
mos internacionais contrários ao curso tomado pelo governo.
Segundo Mamede, a boa situação econômica ajudou a enfren-
tar o maior desafio político da coalizão de esquerda – aumentar
os haveres dos trabalhadores e dos benefícios sociais (um objetivo
declarado do PS e uma obrigação absoluta para o Partido Comu-
nista e o bloco de esquerda) –, ao tempo que se respeitam as nor-
mas orçamentárias da União Europeia (uma obrigação absoluta
para o PS). Mas também assinala que, apesar do crescimento, o
problema fundamental da disciplina orçamentária constante per-
sistiu e foi abordado pelo governo socialista “em grande medida à
custa de recortar o investimento público e atrasar a restauração de
serviços coletivos”. Esta tese é confirmada por numerosas notícias
sobre deficiências no Estado de Bem-Estar Social e as greves em
setores públicos como a saúde, a educação e a Justiça.
Além da situação econômica favorável, outra particularidade do
panorama político em Portugal é a aliança de esquerda. Desde a
Revolução dos Cravos, em 1974, que levou o país ao fim da guerra
colonial, à democracia e ao desenvolvimento econômico acelerado,
não houve mais movimentos de ultradireita, xenófobos ou naciona-
listas significativos. Isto tampouco mudou nas dramáticas crises
econômicas dos primeiros anos da democracia, quando o Fundo
Monetário Internacional (FMI) interveio no país em 1977 e em 1983.
Assim como na crise do euro, durante a qual a troika lhe impôs um
programa de ajuste muito doloroso (2011-2014), houve sinais de
uma viragem à direita na sociedade. Ao contrário, a maior mani-
festação de protesto contra o governo de direita de então e a troika,
em setembro de 2012, surgiu do movimento de trabalhadores pre-
carizados, devido seu gigantesco êxito, sobretudo graças à onda de
solidariedade que mobilizou o país, de norte a sul.
Enquanto isso, a oposição conservadora-liberal está em crise.
Isto porque o êxito do governo do Partido Socialista provocou a
perda de grande parte da credibilidade dela. Em dezembro de 2018,
as forças de direita tentaram organizar ações no estilo dos “chale-
cos amarelos” franceses. Nos pequenos protestos, com pouca par-
ticipação, sem dúvida, houve mais policiais e jornalistas que mani-
festantes, tendo terminado em um fracasso lamentável.
Como se deve entender esta imunidade de Portugal frente às
agitações da direita? Está, por um lado, na história do país. A dita-
dura de direita, sob a qual o país permaneceu na pobreza, o sub-
desenvolvimento e uma rígida separação de classes, conta com um
Uma esquerda exitosa
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