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A minha mãe desconfia dele. Tem medo de que ele leve a sua gaivota no bote. É a sua reacção de mãe. Desconfia de tudo
o que possa magoar-me. Mas aquele homem não pretende fazer-me mal.
E se for preciso desconfiar, esteja descansada, minha mãe, que eu estarei atenta. Já sou crescida.
Jean pergunta-me se podemos encontrar-nos regularmente, para conversarmos e para que possa fazer uma ideia das minhas capacidades como actriz. Eu desconfio:
" Diz que me quer para esse papel, mas pode estar enganado a meu respeito.",
Raramente me engano na vida." Confiar num desconhecido não é uma reacção evidente.
No entanto é instintiva. Ignoro ainda se serei capaz de interpretar a Sara dos Filhos do Silêncio. É um papel difícil. É preciso não só representá-lo, mas vivê-lo do interior. E eu não tenho experiência.
Há poucas actrizes surdas; na Bélgica, foi uma actriz ouvinte quem representou o papel. O filme americano adaptado da peça teve um sucesso enorme e ganhou um prémio de interpretação, um Óscar de Hollywood.
É uma tarefa gigantesca representar aquele papel. Durante nove meses encontrámo-nos para que nascesse Sara. Olhares.
Quanto mais nos vemos mais conversamos juntos, mais eu o questiono sobre a personalidade de Sara, ele sempre muito paciente e eu cada vez mais atraída por ele. Mas sou eu quem diz:
Primeiro acabo o liceu.",
" Concordo, mas antes tens que me dar a tua resposta. Não é fácil montar uma peça destas.",
Silêncio. A gaivota está a pensar.
O homem atrai-me, a peça, o papel, tudo me atrai. Fazer teatro é a minha paixão. Nunca teria ousado esperar semelhante proposta. Mas não quero ser desestabilizada a três meses do exame.