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Quando eu tinha dez anos, vi num teatro dos Campos Elíseos, onde fui com os meus pais, uma peça intitulada Os Filhos do Silêncio. Tratava-se de uma peça de Mark Meddof, que ele escreveu para uma amiga, a actriz surda Phylis Freylick. Na altura, o papel feminino era interpretado por Chantal Liennel, aquela que me baptizou quando eu era pequena com o nome de " O Sol Que Sai do Coração ".
Naquela idade não percebi tudo. Lembro-me principalmente do ambiente do espectáculo. O palco, as personagens, um homem que ouve, uma mulher que fala por gestos. O combate entre dois mundos.
A minha mãe disse-me:
" Emmanuelle, há um encenador que quer falar contigo por causa de uma reposição dos Filhos do Silêncio. Marquei uma entrevista com ele em teu nome."
Emoção. Palpitações.
No dia combinado ele apresenta-se. Vem de sobretudo e fato completo, muito chique. Eu, aluna do liceu, estou de jeans e sweat-shirt.
Trocamos um olhar. E nesse olhar há de imediato qualquer coisa. As mãos dele falam a minha língua. Jean Darlic diz-me imediatamente:
" No que respeita ao físico, você corresponde em absoluto àquilo que eu pretendo para fazer o papel de Sara nos Filhos do Silêncio! Muitas pessoas têm tentado fazer-me desistir da ideia de contratar uma actriz surda para esta peça. Mas eu já decidi. É terrível recusar aos surdos o direito ao trabalho e à Cultura. É uma vergonha!"
Um dia perguntei-lhe por que é que ele se interessava tanto pelo mundo dos surdos, por que é que se batia tanto pelos direitos dos surdos, o que é que o prendia tanto a eles. Ficou silencioso... Pôs-se a pensar e depois respondeu-me, perturbado pela pergunta:
Não sei, tenho a impressão de pertencer à mesma família! " Sara, o principal papel feminino! A minha mãe disse-lhe:
" Tenha cuidado, a Emmanuelle é uma actriz amadora. Nunca representou como profissional, só por prazer. Não lhe acencom um papel que ela talvez não consiga interpretar!,"