O voo da Gaivota 1 | Page 121

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Passo o tempo a folhear dicionários e livros. Para encontrarprecisamente o sentido de uma frase que compreendi nos lábiosde um professor. Estudo com afinco. Atiro-me aos livros porvezes até às duas ou três da manhã, como uma doida. O fato de ser bilingue ajuda-me imenso. A ortografia não vai mal.
Identifico visualmente muito bem os erros. Mas quanto à construção das frases, quando entra se bem que ou enquanto... é complicado. Não temos a mesma gramática em língua gestual.
E esforço-me sempre por construir bem uma frase em francês, por ter um bom estilo. Porque gostaria que saísse académico.
Impecável.
A minha irmã, que me bate de longe nesta matéria, a quemeu ensinei a língua gestual na perfeição, do que muito meorgulho, corrige agora os meus textos de francês. Maria diz:
" O que é que queres dizer com este " porque "? Colocaste-oali para quê? Puseste muito os quem e que, e não estão no sítio certo."
Farto-me de ler jornais, ando à volta com os livros até conseguir ver mais claro. Tenho a cabeça recheada de tantas coisas que por vezes devo ficar com um ar aparvalhado.
Está na minha maneira de ser, ultrapassar-me a mim mesma, ir até ao fim das coisas que me proponho fazer. Quando decido atingir uma meta não paro. Nada me faz parar. Gaivota teimosa. Gaivota obstinada, cansada.
1991, ano do fim do liceu para Emmanuelle Laborit. Primeiro ensaio.
Tenho dezanove anos. Estou aterrorizada. Morta de medo.
Quero tanto passar, trabalhei tanto, noite e dia, e estou tão aterrorizada que no dia do exame perco todas as minhas faculdades. Foi um fracasso.
Foi difícil de aceitar este chumbo, assim, de forma tão estúpida. Foi o pavor que me deitou abaixo.
A gaivota sentiu-se desencorajada. Pensei seriamente em desistir. No fundo, para que é que eu preciso do liceu? E se eu defacto desistisse? Os meus pais dizem-me: