O voo da Gaivota 1 | Page 112

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raios cor de laranja, que os designers da informação acharam espectaculares, que geram a confusão.
Aids igual a sol, igual a perigo! De tal maneira que a única precaução que os surdos convencidos disso tomam é não se exporem ao sol! Afastam-se receosos do símbolo da vida na Terra para não serem colhidos pela morte.
E dou um outro exemplo: um surdo, a quem o médico diz que o teste revelou que era soropositivo. Para lhe incutir confiança, o médico explica-lhe que o facto de ser seropositivo não significa que tenha sida, e que nessas circunstâncias não precisa de ter precauções especiais; subentendido: não há doença, portanto não há medicamentos... Pode fazer a vida normal. O surdo soropositivo sai do consultório tendo em mente uma noção completamente deformada. Possivelmente propagou o vírus sem saber o que fazia. Isto é um erro imperdoável.
Um amigo meu, Bruno Moncelle, propôs-me fazer parte de um grupo de voluntários, criado em 1989, no seio da Associação AIDES. Juntamente com outros surdos, recebi formação
para melhor conhecer a doença e estudar com eles a melhor maneira de espalhar a informação na nossa comunidade.
Não basta dar conforto afectivo aos doentes. A prevenção é urgentíssima. Encontrar na língua gestual um código suficientemente esclarecedor para que a forma de transmissão do vírus seja compreendida por toda a gente. Organizar reuniões nos centros educativos para explicar como se transmite a Aids.
Em algumas reuniões de informação em que participei, com o Bruno Moncelle, as respostas eram espantosas. Ele perguntava:
" Há alguém que me possa dizer como se apanha Aids?" Respostas: " Quando nos beijamos?" " Quando se tem manchas na cara...", " Quando se tem borbulhas." " Não nos devemos beijar." " Para mim a Aids não é problema. Não tenho."