O MOCHO N.º 34 MARÇO/ABRIL 2017 | Page 44

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A dama pé de cabra

Ato I

Cena I

(D. Diogo Lopes montado num cavalo branco. Ouve-se o cantar de uma mulher. Aparece uma mulher bonita, de cabelo louro e muito branca, com um sorriso sereno)

Diogo - Quem sois vós, senhora?

Mulher - Sou uma dama tão nobre como Sua Excelência!

Diogo- Isso eu não sei, mas se uma senhora tão formosa como vós se casar comigo, eu ofereço-lhe todas as minhas terras e castelos!

Mulher - Precisais delas para cavalgar, guardai-as para vós, meu senhor!

Diogo - Que quer que lhe ofereça então?

Mulher - Quero uma coisa que não me podeis dar, pois isso foi o que a vossa mãe vos deu!

Diogo - E se eu a amar mais do que à minha própria mãe?

Mulher – Assim sendo, só se me prometerdes que parais de fazer o sinal da cruz que ela vos ensinou.

Diogo (hesitante e apaixonado) – Que assim seja! (Abraça a mulher e saem juntos montados a cavalo)

Ato II

Cena I

(No castelo, no quarto de Diogo e da mulher. Veem-se os pés de cabra dela.)

Diogo – Por mais anos que passem, continuais bela e formosa como no primeiro dia em que vos vi!

Mulher – E vós, o melhor pai e marido que pode haver!

Cena II

(Aparecem Inigo e Sol, filhos do casal. É noite e estão todos a jantar e a conversar alegremente. Junto a uma lareira, dorme o cão de Diogo. A cadela da mulher fareja o aposento. Diogo dá um osso ao seu cão e a cadela morde-o na garganta. Diogo levanta-se e entorna o vinho).

Diogo - Ah, cadela maldita! (vira, com o pé, o corpo do cão que tem o pescoço cheio de feridas) – Por minha fé, nunca vi uma coisa assim. Aqui andam artes de Belzebu! (benze-se várias vezes.)