A dama pé de cabra
Ato I
Cena I
(D. Diogo Lopes montado num cavalo branco. Ouve-se o cantar de uma mulher. Aparece uma mulher bonita, de cabelo louro e muito branca, com um sorriso sereno)
Diogo - Quem sois vós, senhora?
Mulher - Sou uma dama tão nobre como Sua Excelência!
Diogo- Isso eu não sei, mas se uma senhora tão formosa como vós se casar comigo, eu ofereço-lhe todas as minhas terras e castelos!
Mulher - Precisais delas para cavalgar, guardai-as para vós, meu senhor!
Diogo - Que quer que lhe ofereça então?
Mulher - Quero uma coisa que não me podeis dar, pois isso foi o que a vossa mãe vos deu!
Diogo - E se eu a amar mais do que à minha própria mãe?
Mulher – Assim sendo, só se me prometerdes que parais de fazer o sinal da cruz que ela vos ensinou.
Diogo (hesitante e apaixonado) – Que assim seja! (Abraça a mulher e saem juntos montados a cavalo)
Ato II
Cena I
(No castelo, no quarto de Diogo e da mulher. Veem-se os pés de cabra dela.)
Diogo – Por mais anos que passem, continuais bela e formosa como no primeiro dia em que vos vi!
Mulher – E vós, o melhor pai e marido que pode haver!
Cena II
(Aparecem Inigo e Sol, filhos do casal. É noite e estão todos a jantar e a conversar alegremente. Junto a uma lareira, dorme o cão de Diogo. A cadela da mulher fareja o aposento. Diogo dá um osso ao seu cão e a cadela morde-o na garganta. Diogo levanta-se e entorna o vinho).
Diogo - Ah, cadela maldita! (vira, com o pé, o corpo do cão que tem o pescoço cheio de feridas) – Por minha fé, nunca vi uma coisa assim. Aqui andam artes de Belzebu! (benze-se várias vezes.)