O Mocho Ano 2 - Número 13 - janeiro 2015 | Page 45

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Farol na Noite

Publicado em 6 de Dezembro de 2014 por jcrispimromao

A luz acende, tornando nítidas

As imperfeições da pedra, os rasgos feitos

Pelos escopros, pelas pancadas batidas,

Pedaço informe de pedra dominada.

O velho candeeiro, de bronze, carcomido,

Desgastado pelos estios e pelos gelos invernais

Destaca-se da cor esbatida, clara, da pedra,

Sobressaindo da velha parede, papiro escrito,

Odisseia de tempestades enfrentadas.

A noite chegou, espraiando-se lentamente

Cobrindo tudo no seu manto escuro, sem distinção,

Uniformizando os matizes que se vão afogando

Na ausência de luz clara e viva do sol

Percebe-se então que a vida começa a girar

Em torno deste candeeiro de rua, desgastado pelo tempo

Mas que, consegue fazer vingar a sua luz

Brilhando agora na escuridão, como um farol.

Pequenos reflexos tremeluzentes, circumvoluções

Esvoaçantes, largas figuras desenvolvidas no ar,

Batendo, por vezes, com uma força desmedida contra o vidro,

Fazendo um ruído seco, mas entrecortado pelo voo perdido

Das asas batendo, na eterna procura do vazio de luz,

Atraente, como um enorme vórtex, atraindo a vida.

A borboleta, porventura ofuscada pela forte luz,

Realçada contra o escuro da noite, perde o pé, perde a força

Procura um pouso, um local para descansar do esforço insano.

Não se apercebe que, da escuridão, lentamente,

Uma figura de forma esquiva, monstruosa, de olhos lentos,

Se aproxima, fixando os seus ágeis dedos na superfície fria da pedra.

E, imóvel, espera o seu momento, espera a sua presa

Que inadvertidamente descansa pousada na pedra.

E antes que, de novo, voe de encontro à luz,

Um movimento brusco, um ligeiro mexer, e a borboleta

Desaparece, tragada num movimento trágico, na placidez da noite.

Os sonhos da borboleta, de atingir um mundo iluminado

Levaram-na a um fim brusco, inconsciente, do seu fado.

Aquela borboleta não mais irá procurar a luz,

Não mais irá esvoaçar junto daquele lampião velho,

E a sua procura de algo belo e atraente, terminou

De forma rápida, involuntária, inconsciente, um pequeno acidente

No desenrolar da vida, busca contínua de novos momentos,

Eterna interação das pequenas parcelas de vida do universo.

Levanto-me e, sozinho, com um passo lento, enfrento a escuridão da viela

Que me engole, fazendo-me também desaparecer no buraco da noite.

A luz, essa, ficou para trás, solitária, farol de destino de outros esvoaçares.

JOSÉ ROMÃO