O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 98

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA sucintamente com uma chamada em negrito que dizia o seguinte: "David Martín, um completo desconhecido e redator de anúncios, nos surpreende com o que talvez seja a pior estréia literária do ano." Deixei os jornais e o café que tinha pedido na mesa e desci Rambla abaixo até o escritório de Barrido e Escobillas. No caminho, passei diante de quatro ou cinco livrarias, todas enfeitadas com inúmeras cópias do romance de Vidal. Em nenhuma delas encontrei um só exemplar do meu. Em todas repetia-se o mesmo episódio vivido no Catalonia. — Veja bem, não sei o que aconteceu, tinha que ter chegado anteontem, mas o editor diz que esgotou o estoque e que não sabe quando vai reimprimir. Se quiser deixar um nome e um telefone, posso avisar se chegar... Perguntou na Catalonia? Se eles não têm... Os dois sócios me receberam com ar fúnebre e antipático. Barrido, atrás da escrivaninha, acariciando uma esferográfica, e Escobillas, de pé às suas costas, medindo- me com o olhar. A Veneno se mordia de curiosidade, sentada numa cadeira a meu lado. — Não sabe como sinto, amigo Martín — explicava Barrido. — O problema é o seguinte: os livreiros fazem seus pedidos com base nas resenhas que aparecem nos jornais, não me pergunte porquê. Se for ao depósito aqui ao lado, verá que temos três mil exemplares de seu romance mortos de tédio. — Com o custo e o prejuízo que isso implica — completou Escobillas, em tom claramente hostil. — Passei pelo depósito antes de vir para cá e verifiquei que havia apenas trezentos exemplares. O encarregado disse que não imprimiram mais do que isso. — É mentira — proclamou Escobillas. Barrido interrompeu-o, conciliador. — Perdoe o meu sócio, Martín. Deve entender que estamos tão ou mais indignados que você com o tratamento vergonhoso que a imprensa local dedicou a seu livro, pelo qual todos nessa casa estamos profundamente entusiasmados, mas rogo que entenda que, apesar de nossa fé ardorosa em seu talento, nesse caso estamos de pés e mãos atados pela confusão criada por essas notas maldosas da imprensa. Mas não desanime, pois Roma não se fez num dia. Estamos lutando com todas as nossas forças para dar à sua obra a projeção que seu valor literário, altíssimo, merece... — Com uma edição de trezentos exemplares. Barrido suspirou, ferido por minha falta de fé. — É uma edição de quinhentos — precisou Escobillas. — Os outros duzentos foram retirados em pessoa por Barceló e Sempere, ontem. O resto sairá na próxima remessa,