O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 57
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Cristina Sagnier, filha do motorista e secretária de meu mentor, repassava uma pilha
de livros, cujos títulos Sempere ia anotando no registro de vendas. Ao me ver, sorriu com
delicadeza, mas tive certeza de que não estava me reconhecendo. Sempere ergueu os
olhos e ao perceber minha cara de bobo fez uma rápida radiografia da situação.
— Então, vocês já se conhecem, não é mesmo? — disse.
Cristina ergueu as sobrancelhas, surpresa, e olhou de novo para mim, incapaz de me
localizar.
— David Martín. Amigo de Pedro Vidal — socorri.
— Ah, claro — disse. — Bom dia.
— E seu pai, como vai? — improvisei.
— Bem, muito bem. Está me esperando na esquina com o carro.
Sempere, que não deixava passar uma, interveio:
— A senhorita Sagnier veio pegar os livros que Vidal encomendou. Como são um
pouco pesados, talvez possa ter a bondade de ajudá-la a levá-los até o carro...
— Não se preocupem... — protestou Cristina.
— Ora, imagine — saltei eu, pronto para levantar a pilha de livros, que pesava como a
edição de luxo da Enciclopédia Britânica, anexos incluídos.
Senti que alguma coisa estalou em minhas costas e Cristina olhou para mim,
preocupada.
— O senhor está bem?
— Não tenha medo, senhorita. O amigo Martín, embora se dedique às letras, é um
touro — disse Sempere. — Não é mesmo, Martín?
Cristina observava, pouco convencida. Exibi meu melhor sorriso de macho invencível.
— Puro músculo — disse. — Isso para mim é só aquecimento. Sempere filho fez
menção de oferecer ajuda para carregar metade dos livros, mas seu pai, num golpe de
diplomacia, segurou-o pelo braço. Cristina segurou a porta e aventurei-me a percorrer os
15 a 20 metros que me separavam da Hispano-Suiza estacionada na esquina com Portal
del Ángel. Cheguei a duras penas, com os braços a ponto de pegar fogo. Manuel, o
motorista, ajudou a descarregar os livros e cumprimentou-me efusivamente.
— Que coincidência encontrá-lo por aqui, Sr. Martín.
— Mundo pequeno...
Cristina me brindou com um leve sorriso como agradecimento e entrou no carro.
— Lamento pelos livros.