O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 56

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 9 O Sr. Sempere colocou suas lentes de precisão para examinar o livro. Depositou-o sobre um pano estendido na escrivaninha no fundo da livraria e dobrou a luminária para que o feixe de luz se concentrasse no volume. Sua análise pericial prolongou-se durante vários minutos, nos quais guardei um silêncio religioso. Observei-o passando as folhas, cheirando-as, acariciando o papel e a lombada, sentindo o peso do livro com uma mão e em seguida com a outra e, finalmente, fechando a capa e examinando com uma lupa as marcas tingidas de sangue seco que meus dedos tinham deixado 12 ou 13 anos antes. — Inacreditável — sussurrou, tirando as lentes. — É o mesmo livro. Como disse mesmo que o recuperou? — Nem eu mesmo sei. O que sabe a respeito de um editor francês chamado Andreas Corelli, Sr. Sempere? — Assim de cara me soa mais italiano que francês, embora Andreas também pareça grego... — A editora fica em Paris. Éditions de la Lumière. Sempere ficou pensativo por alguns minutos, hesitante. — Temo que o nome não me seja familiar. Perguntarei a Barceló, que sabe de tudo, para ver o que diz. Gustavo Barceló era um dos decanos da associação dos comerciantes de livros antigos de Barcelona, e seu acervo enciclopédico era tão lendário quanto seu temperamento vagamente ríspido e pedante. Entre os profissionais, a tradição rezava que, na dúvida, melhor perguntar a Barceló. Naquele instante, surgiu o filho de Sempere que, embora dois ou três anos mais velho que eu, era tão tímido que ficava quase invisível, e fez um sinal ao pai. — Pai, vieram pe gar um pedido que acho que foi o senhor quem recebeu. O livreiro concordou e me estendeu um volume grosso muito surrado. — Aqui está o último catálogo de editores europeus. Se quiser, pode ir dando uma olhada para ver se encontra alguma coisa, enquanto atendo o cliente — sugeriu. Fiquei a sós nos fundos da livraria, procurando em vão pelas Éditions de la Lumière, enquanto Sempere voltava para o balcão. Folheando o catálogo, ouvi que conversava com uma voz feminina que me pareceu familiar. Quando mencionaram Pedro Vidal, aproximei- me, intrigado, para bisbilhotar.