O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 43

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Por fim, olhou para mim e encolheu os ombros. — Estou despedido — murmurei. Dom Basilio fez que sim. Sentia que, embora tentasse evitar, meus olhos enchiam-se de lágrimas. — Agora pode parecer o fim do mundo, mas acredite quando lhe digo que, no final das contas, é o melhor que podia acontecer. Este lugar não é para você. — E que lugar é para mim? — perguntei. — Sinto muito, Martín. Acredite, sinto muito mesmo. Dom Basilio levantou e colocou a mão em meu ombro afetuosamente. — Feliz Natal, Martín. Esvaziei minha escrivaninha naquela mesma noite e deixei para sempre o lugar que tinha sido meu lar, perdendo-me nas Ruas escuras e solitárias da cidade. A caminho da pensão, aproximei-me do restaurante Set Portes, sob os arcos da Casa Xifré. Fiquei do lado de fora, contemplando meus colegas rindo e brincando atrás das vitrines. Pensei que minha ausência os deixava felizes ou que, pelo menos, permitia que esquecessem aquilo que não eram e que não seriam jamais. Passei o resto da semana à deriva, refugiando-me todos os dias na biblioteca do Ateneu e tentando acreditar que, ao voltar à pensão, encontraria um bilhete do diretor pedindo que me reincorporasse à redação. Escondido em uma das salas de leitura, pegava o cartão de visita que estava na minha mão quando despertei no El Ensueño e começava a escrever uma carta para Andreas Corelli, meu benfeitor misterioso, mas sempre acabava desistindo e recomeçando no dia seguinte. No sétimo dia, farto de tanta autocomiseração, resolvi fazer a inevitável peregrinação ao lar do meu criador. Tomei o trem de Sarrià, na Rua Pelayo. Naquela época, ele ainda circulava na superfície e sentei bem na frente do vagão para contemplar a cidade e as Ruas tornando- se mais amplas e senhoriais à medida que nos afastávamos do centro. Desci na parada de Sarrià e peguei um bonde que parava bem na porta do monastério de Pedralbes. Era um dia de calor incomum naquela época do ano e podia sentir na brisa o perfume dos pinheiros e da giesta que salpicavam as ladeiras da montanha. Emboquei pela avenida Pearson, que já começava a se urbanizar, e logo vislumbrei a inconfundível silhueta da Villa Helius. À medida que subia a ladeira e me aproximava, pude distinguir Vidal sentado na janela de seu torreão, saboreando um cigarro. Ouvi música flutuando no ar e lembrei então que Vidal era um dos poucos privilegiados que possuía um receptor de rádio. Como a vida era bela vista lá de cima e como eu devia parecer pequeno.