O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 408
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Ainda não terminei. Não poderá dizer que não levo meu trabalho a sério. Tanto que
saí de lá e fui para o casarão que descreveu junto do Parque Güell, que está abandonado
há pelo menos dez anos e no qual lamento lhe dizer que não havia nem fotografias, nem
estampas, nem nada além de merda de gato. O que acha?
Não respondi.
— Diga-me, Martín. Ponha-se em meu lugar. O que faria se encontrasse nessa
situação?
— Desistir, imagino.
— Exatamente. Mas não sou você e, como um idiota, depois de tão proveitoso périplo,
decidi seguir seu conselho e procurar a temível Irene Sabino.
— E conseguiu encontrá-la?
— Dê um pouco de crédito para as forças da ordem, Martín. Claro que a encontramos.
Morta de tédio numa pensão miserável do Raval onde vive há anos.
— Falou com ela?
Grandes concordou.
— Longamente.
— E?
— Não tem a mais remota idéia de quem é você.
— Foi isso que lhe disse?
— Entre outras coisas.
— Que coisas?
— Contou que conheceu Diego Marlasca numa sessão organizada por Roures em um
apartamento da Rua Elisabets, onde a associação espírita O Porvir se reunia, no ano de
1903. Contou que se deparou com um homem que buscou refugio em seus braços,
arrasado pela perda de um filho e preso num casamento que já não tinha sentido algum.
Contou que Marlasca era um homem bom, mas perturbado, que acreditava que algo tinha
tomado conta de seu corpo e que estava convencido de que ia morrer em breve. Contou
que, antes de morrer, deixou uma quantia para que ela e o homem que havia abandonado
quando resolveu ficar com Marlasca, Juan Corbera, aliás Jacó, pudessem contar com
algum dinheiro em sua ausência. Contou que Marlasca tirou a própria vida porque não
conseguia suportar a dor que o consumia. Contou que ela e Juan Corbera viveram daquela
caridade de Marlasca, até que o fundo se esgotou e que o homem que ela chama de Jacó
a abandonou pouco depois. E que soube que tinha morrido só e consumido pelo álcool
quando trabalhava como vigia noturno na fábrica de Casaramona. Contou que sim, levou