O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 404
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
compartilham mais, pois pensam que estou lhe dando muita corda em honra à nossa
amizade.
Grandes virou-se e olhou para mim contendo a raiva.
— Não me escutou — disse eu. — Não ouviu uma palavra do que disse.
— Ouvi perfeitamente, Martín. Ouvi que, moribundo e desesperado, firmou um acordo
com um misteriosíssimo editor parisiense, do qual ninguém nunca ouviu falar, nem nunca
viu, para que, em suas próprias palavras, inventasse uma nova religião em troca de 100
mil francos franceses, só para descobrir que, na realidade, tinha caído num sinistro complô
no qual estariam envolvidos um advogado, Diego Marlasca, que simulou a própria morte
há 25 anos e sua amante, uma corista decadente, tudo com o objetivo de escapar de seu
destino, que agora é o seu. Ouvi que esse destino o levou a cair na armadilha de um
casarão maldito, que já tinha aprisionado seu predecessor, o mesmo Marlasca, onde
achou a prova de que alguém estava seguindo seus passos e assassinando todos aqueles
que podiam revelar o segredo desse homem que, a julgar por suas palavras, estava quase
tão louco quanto você. Esse homem na sombra, que teria assumido a identidade de um
antigo policial para ocultar que continuava vivo, cometeu uma série de crimes com a ajuda
da amante, inclusive o assassinato do Sr. Sempere por algum estranho motivo que nem
você sabe explicar.
— Irene Sabino matou Sempere para roubar um livro. Um livro que ela acreditava que
continha a minha alma.
Grandes deu com a palma da mão na testa, como se acabasse de descobrir a
pólvora.
— Claro. Que idiota eu sou. Isso explica tudo. Assim como a história do terrível
segredo que uma feiticeira da praia do Bogatell lhe revelou. A Bruxa do Somorrostro.
Gostei. Bem a sua cara. Vamos ver se entendi direito. O tal Marlasca mantém uma alma
prisioneira para ocultar a sua própria, evitando assim uma suposta maldição. Diga-me uma
coisa, tirou isso de A Cidade dos Malditos ou acabou de inventar?
— Não inventei nada.
— Ponha-se em meu lugar e veja se acreditaria em alguma coisa do que me disse.
— Imagino que não. Mas contei tudo o que sei.
— Claro. Forneceu dados e provas concretas para que eu possa comprovar a
veracidade de seu relato, desde a sua visita ao Dr. Trias, sua conta bancária no banco
Hispano Colonial, sua própria lápide mortuária numa oficina do Pueblo Novo e até um
vínculo legal entre o homem que chama de patrão e o escritório de advocacia de Valera,