O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 391
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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A escada estava às escuras, quando abandonei o palácio da família Valera. Cruzei o
hall apalpando pelos cantos e, quando abri a porta, os lampiões da Rua projetaram no
interior um retângulo de claridade azul em cuja extremidade encontrei o olhar do porteiro.
Afastei-me dali rapidamente, rumo à Rua Trafalgar, de onde partia o bonde noturno que ia
até a porta do cemitério Pueblo Nuevo, o mesmo que tomei tantas noites com meu pai,
quando lhe fazia companhia no turno de vigia em La Voz de la Industria.
O bonde quase não tinha passageiros e sentei na frente. À medida que nos
aproximávamos do Pueblo Nuevo, o bonde mergulhava num emaranhado de Ruas
tenebrosas, cobertas por grandes poças que o vapor encobria. Quase não havia
iluminação pública e as luzes do bonde iam revelando contornos como uma tocha através
de um túnel. Finalmente, avistei as portas do cemitério e o perfil de cruzes e esculturas
recortado contra o horizonte sem fim de fábricas e chaminés, que injetavam o céu de
vermelho e negro. Um bando de cães famélicos perambulava ao pé dos grandes anjos que
guardavam o recinto. Por um instante, ficaram imóveis olhando os faróis do bonde, os
olhos acesos como olhos de chacais; em seguida, dispersaram-se nas sombras.
Saltei do bonde ainda em marcha e comecei a rodear os muros do campo-santo. O
veículo afastou-se como um barco na neblina e apertei o passo. Podia ouvir e cheirar os
cães que me seguiam na escuridão. Ao chegar à parte traseira do cemitério, parei na
esquina do beco e joguei uma pedra na direção deles, às cegas. Ouvi um ganido agudo e
pisadas rápidas, afastando-se na noite. Entrei no beco, nada mais que uma passagem
apertada entre o muro e a fileira de oficinas de escultura que se apinhavam uma atrás da
outra. O cartaz de Sanabre e Filhos balançava a 30 metros dali, à luz de um lampião que
projetava uma luz ocre e poeirenta. Fui até a porta, apenas uma grade fechada por
correntes e por um cadeado enferrujado, que destrocei com um tiro.
O vento que soprava da extremidade do beco, impregnado de maresia, pois o mar
ficava a uma centena de metros dali, carregou o eco do disparo. Abri a grade e entrei na
oficina de Sanabre e Filhos. Afastei a cortina de tecido escuro que escondia o interior e
deixei que a claridade do lampião penetrasse pela entrada. Mais adiante, abria-se uma
sala profunda e estreita povoada de figuras de mármore congeladas na escuridão, os
rostos semi-esculpidos. Dei alguns passos entre virgens e madonas com seus infantes nos
braços, damas brancas com rosas de mármore nas mãos, erguendo os olhos para o céu e