O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 391

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 15 A escada estava às escuras, quando abandonei o palácio da família Valera. Cruzei o hall apalpando pelos cantos e, quando abri a porta, os lampiões da Rua projetaram no interior um retângulo de claridade azul em cuja extremidade encontrei o olhar do porteiro. Afastei-me dali rapidamente, rumo à Rua Trafalgar, de onde partia o bonde noturno que ia até a porta do cemitério Pueblo Nuevo, o mesmo que tomei tantas noites com meu pai, quando lhe fazia companhia no turno de vigia em La Voz de la Industria. O bonde quase não tinha passageiros e sentei na frente. À medida que nos aproximávamos do Pueblo Nuevo, o bonde mergulhava num emaranhado de Ruas tenebrosas, cobertas por grandes poças que o vapor encobria. Quase não havia iluminação pública e as luzes do bonde iam revelando contornos como uma tocha através de um túnel. Finalmente, avistei as portas do cemitério e o perfil de cruzes e esculturas recortado contra o horizonte sem fim de fábricas e chaminés, que injetavam o céu de vermelho e negro. Um bando de cães famélicos perambulava ao pé dos grandes anjos que guardavam o recinto. Por um instante, ficaram imóveis olhando os faróis do bonde, os olhos acesos como olhos de chacais; em seguida, dispersaram-se nas sombras. Saltei do bonde ainda em marcha e comecei a rodear os muros do campo-santo. O veículo afastou-se como um barco na neblina e apertei o passo. Podia ouvir e cheirar os cães que me seguiam na escuridão. Ao chegar à parte traseira do cemitério, parei na esquina do beco e joguei uma pedra na direção deles, às cegas. Ouvi um ganido agudo e pisadas rápidas, afastando-se na noite. Entrei no beco, nada mais que uma passagem apertada entre o muro e a fileira de oficinas de escultura que se apinhavam uma atrás da outra. O cartaz de Sanabre e Filhos balançava a 30 metros dali, à luz de um lampião que projetava uma luz ocre e poeirenta. Fui até a porta, apenas uma grade fechada por correntes e por um cadeado enferrujado, que destrocei com um tiro. O vento que soprava da extremidade do beco, impregnado de maresia, pois o mar ficava a uma centena de metros dali, carregou o eco do disparo. Abri a grade e entrei na oficina de Sanabre e Filhos. Afastei a cortina de tecido escuro que escondia o interior e deixei que a claridade do lampião penetrasse pela entrada. Mais adiante, abria-se uma sala profunda e estreita povoada de figuras de mármore congeladas na escuridão, os rostos semi-esculpidos. Dei alguns passos entre virgens e madonas com seus infantes nos braços, damas brancas com rosas de mármore nas mãos, erguendo os olhos para o céu e