O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | страница 388

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Do outro lado da porta encontrei uma sala de leitura dominada por uma grande lareira. Não havia outro foco de luz além das chamas, e uma dança de sombras ondulantes deslizava pelas paredes e pelo teto. No centro da sala havia uma mesa sobre a qual repousava o gramofone de onde saía aquela música. De frente para o fogo, de costas para a porta, havia uma grande poltrona de couro. O cão se aproximou da cadeira e virou de novo para olhar para mim. Fui naquela direção, apenas o suficiente para ver a mão que descansava sobre o braço da poltrona, sustentando um cigarro aceso que desprendia uma linha de fumaça azul que subia nitidamente. — Valera? Sou eu, Martín. A porta estava aberta... O cão estendeu-se aos pés da poltrona, sem parar de olhar fixamente para mim. Aproximei-me devagar e rodeei a cadeira. O advogado Valera estava sentado diante do fogo, com os olhos abertos e um leve sorriso nos lábios. Vestia um terno de três peças e na outra mão segurava um caderno de couro no colo. Fiquei bem diante dele e fitei seus olhos. Não pestanejava. Foi então que percebi uma lágrima vermelha, uma lágrima de sangue que descia lentamente por sua face. Ajoelhei diante dele e peguei o caderno que segurava. O cão lançou um olhar desolado. Acariciei sua cabeça. — Sinto muito — murmurei. O caderno estava escrito à mão e parecia uma espécie de agenda com as entradas de parágrafo datadas e separadas por uma linha em branco. Valera tinha aberto o caderno bem na metade. A primeira entrada da página aberta indicava que a anotação correspondia ao dia 23 de novembro de 1904. Aviso de caixa (356-a/23-11-04), 7.500 pesetas, conta fundo D.M. Envio por Mareei (pessoalmente) no endereço dado por D.M. Passagem atrás do cemitério velho — oficina de escultura Sanabre e Filhos. Reli aquela entrada várias vezes, tentando entender seu sentido. Conhecia aquela passagem dos meus anos na redação de La Voz de la Industria. Era uma viela miserável mergulhada atrás do cemitério do Pueblo Nuevo, onde se amontoavam oficinas funerárias de lápides e esculturas e que morria num dos riachos que cruzavam a praia do Bogatell e a cidadela de barracos que se estendia até o mar, o Somorrostro. Por algum motivo, Marlasca tinha deixado instruções para que uma soma considerável fosse entregue a uma daquelas oficinas.