O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 387

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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O advogado Valera vivia numa mansão monumental com ares de castelo normando, encravada na esquina das Ruas Girona e Ausiàs March. Supus que tinha herdado aquela monstruosidade do pai, junto com o escritório, e que cada pedra que a sustentava tinha sido forjada com o sangue e o fôlego de gerações e gerações de barceloneses que nunca sequer sonharam em colocar os pés num palácio como aquele. Disse ao porteiro que tinha alguns papéis do escritório para o advogado, de parte de Srta. Margarita e, depois de hesitar um instante, ele me deixou subir. Subi as escadas sem pressa, sob o olhar atento do porteiro. O patamar do andar principal era mais amplo do que a maioria das moradias que conheci na minha infância no velho bairro da Ribera, a apenas um metro dali. O batedor da porta era um punho de bronze. Assim que toquei nele, percebi que a porta estava aberta. Empurrei suavemente e passei para o interior.
O saguão dava para um longo corredor de cerca de 3 metros de largura, com paredes revestidas de veludo azul e cobertas de quadros. Fechei a porta atrás de mim e examinei a penumbra quente que se entrevia no fundo do corredor. Uma música suave flutuava no ar, um lamento de piano de ar elegante e melancólico. Granados.— Sr. Valera?— chamei.— Martín. Como não obtive resposta, aventurei-me lentamente pelo corredor, seguindo o rastro daquela música triste. Avancei entre os quadros e os nichos que hospedavam imagens de virgens e santos. O corredor era balizado por arcos sucessivos velados por pequenas cortinas. Fui atravessando véu após véu até chegar ao final do corredor, onde se abria uma grande sala imersa na penumbra. O salão era retangular e tinha as paredes cobertas de estantes de livros, do chão ao teto. No fundo, via-se uma grande porta entreaberta e, mais além, a penumbra dançante e alaranjada de uma lareira.— Valera?— chamei de novo, levantando a voz. Uma silhueta perfilou-se no facho de luz que o fogo projetava pela porta encostada. Dois olhos brilhantes me examinaram com receio. Um cachorro que parecia ser um pastor alemão, mas tinha pêlo todo branco, aproximou-se lentamente. Fiquei quieto, desabotoando lentamente o casaco e procurando o revólver. O animal parou a meus pés e olhou para mim, deixando escapar um lamento. Acariciei sua cabeça e ele lambeu meus dedos. Depois, deu meia-volta e foi até a porta atrás da qual brilhava a luz do fogo. Parou no umbral e olhou mais uma vez para mim. Eu o segui.