O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 385
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Era um depósito em moeda estrangeira. Lembro que rondava os 100 mil francos
franceses.
— Marlasca disse onde tinha conseguido esse dinheiro?
— Somos um escritório de advocacia, não uma agência de detetives. O escritório
limitou-se a seguir as instruções estipuladas no testamento do Sr. Marlasca, não a
questioná-las.
— Que outras instruções deixou?
— Nada de especial. Simples pagamentos a terceiros que não tinham nenhuma
relação com o escritório nem com a sua família.
— Lembra de algum em especial?
— Meu pai encarregava-se desses assuntos pessoalmente para evitar que os
empregados da firma tivessem acesso a informações, digamos, comprometedoras.
— E seu pai não achou estranho que seu ex-sócio quisesse entregar tanto dinheiro a
desconhecidos?
— Claro que achou estranho. Muitas coisas lhe pareceram estranhas.
— Lembra onde esses pagamentos deveriam ser feitos?
— Como quer que me lembre? Faz pelo menos 25 anos.
— Faça um esforço — disse. — Pela Srta. Margarita.
A secretária me lançou um olhar de terror, que correspondi piscando um olho para ela.
— Não tenha a ousadia de encostar um dedo nela — ameaçou Valera.
— Não me dê ideias — atalhei. — E a memória? Não estaria refrescando?
— Posso consultar as agendas pessoais de meu pai. Isso é tudo.
— E onde estão?
— Aqui, entre seus papéis. Mas levarei algumas horas...
Desliguei o telefone e contemplei a secretária de Valera, que tinha começado a
chorar. Passei-lhe um lenço e dei uma palmadinha em seu ombro.
— Vamos, mulher, não fique assim, que já estou indo. Viu como só queria falar com
ele?
Concordou aterrorizada, sem afastar os olhos do revólver. Fechei o casaco e sorri.
— Uma última coisa.
Levantou os olhos temendo o pior.
— Escreva o endereço do advogado. E não tente me enganar, porque, se inventar
alguma mentira, voltarei e garanto que deixarei a simpatia natural que me caracteriza na
portaria.