O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 384
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Achei que conseguiria resolver isso tudo amigavelmente, Dr. Valera.
— Não está entendendo, Martín. Não conheço o Sr. Corelli.
— Como?
— Nunca o vi ou falei com ele, e muito menos sei onde poderia encontrá-lo.
— Lembro que foi contratado por ele para me tirar da delegacia.
— Recebemos uma carta semanas antes, bem como um cheque assinado por ele,
dizendo que o senhor era seu associado, que o inspetor Grandes o estava importunando e
que nos encarregássemos de sua defesa, caso necessário. Junto com a carta estava o
envelope que pediu que lhe entregássemos pessoalmente. Limitei-me a depositar o
cheque e pedir a meus contatos na Chefatura de Polícia que me avisassem se o senhor
aparecesse por lá. Foi o que aconteceu e, como bem se lembra, cumpri minha parte do
trato: tirei-o de lá, ameaçando Grandes com uma enxurrada de aborrecimentos se não
facilitasse sua libertação. Não tem por que se queixar de nossos serviços.
Agora o silêncio era meu.
— Se não acredita, peça à Srta. Margarita que lhe mostre a carta — acrescentou
Valera.
— E o seu pai? — perguntei.
— Meu pai?
— Seu pai e Marlasca tinham negócios com Corelli. Ele devia saber alguma coisa...
— Posso garantir que meu pai nunca fez negócios diretamente com o tal Sr. Corelli.
Toda a sua correspondência, se é que havia alguma, pois nada consta nos arquivos do
escritório, era tocada pelo Sr. Marlasca, pessoalmente. De fato, já que perguntou, posso
dizer que meu pai chegou a duvidar da existência desse Sr. Corelli, sobretudo nos últimos
meses de vida do Sr. Marlasca, quando ele começou a tratar, por assim dizer, com aquela
mulher.
— Que mulher?
— A corista.
— Irene Sabino?
Ouvi que suspirava, irritado.
— Antes de morrer, o Sr. Marlasca deixou um fundo de crédito sob a administração e
tutela do escritório para efetuar uma série de pagamentos numa conta em nome de um tal
Juan Corbera e de Maria Antonia Sanahuja.
Jacó e Irene Sabino, pensei.
— De quanto era esse fundo?