O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 235

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Uns, dois ou três me caem que é uma beleza — disse Isabella, presenteando-se com antecedência. — Pois vista o que for mais coberto. — Você não passa de um reacionário. E a minha formação literária, onde fica? — Quer uma aula melhor que Sempere e Filhos para ampliá-la? Lá estará rodeada de obras-primas e vai poder aprender à beça. — E o que devo fazer? Respiro fundo e espero para ver se acontece alguma coisa? — São só algumas horas por dia. Portanto, pode continuar com seu trabalho aqui, como até agora, e aproveitar os meus conselhos, que não têm preço e que farão de você uma nova Jane Austen. — E onde está o truque? — O truque é que todo dia eu lhe darei algumas pesetas que, cada vez que cobrar de um cliente e abrir a caixa, você coloca junto com o resto do dinheiro, com toda a discrição. — Então é esse o plano... — Esse é o plano e, como pode ver, não tem nada de perverso. Isabella franziu a testa. — Não vai funcionar. Ele vai perceber que tem alguma coisa estranha. O Sr. Sempere é esperto como um gato. — Vai funcionar. Se Sempere estranhar, você diz que os clientes, quando vêem uma jovem elegante e simpática atrás do balcão, abrem a mão, são mais generosos. — Isso deve acontecer nos buracos de má fama que você freqüenta, não numa livraria. — Discordo. Se entro numa livraria e encontro uma vendedora tão encantadora quanto você, serei capaz de comprar até o último prêmio nacional de literatura. — É porque você tem uma mente mais suja que pau de galinheiro. — E também porque tenho, ou deveria dizer, temos, uma dívida de gratidão com Sempere. — Isso é golpe baixo. — Então não me faça descer mais baixo ainda. Toda manobra de persuasão que se preze apela primeiro para a curiosidade, depois para a vaidade e, por último, para a bondade ou o remorso. Isabella abaixou os olhos e concordou lentamente. — E quando pretende pôr em prática esse plano da bela dama sem par? — Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje.