O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 213

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA ataques. Algo me dizia que nosso protagonista era um enviado dos céus, mas um enviado que em sua primeira juventude pegava em armas e revelava a verdade a golpes de ferro. — Resolveu misturar a história com a biologia, Martín? — Pelo que pude entender de suas palavras, concluí que eram uma coisa só. Corelli sorriu. Não sei se ele se dava conta disso, mas quando sorria parecia um lobo faminto. Engoli em seco e ignorei aquele semblante que me deixava com os cabelos em pé. — Estive pensando e percebi que a maioria das grandes religiões se originou ou alcançou o ápice de expansão e influência nos momentos da história em que as sociedades que as adotavam tinham uma base demográfica mais jovem e empobrecida. Sociedades nas quais setenta por cento da população tinha menos de 18 anos, a metade formada por rapazes adolescentes com as veias ardendo de agressividade e de impulsos férteis, eram campos adequados para a aceitação e para o apogeu da fé. — Isso é uma simplificação, mas estou acompanhando seu raciocínio, Martín. — Eu sei. Mas levando em conta essas linhas gerais, pergunto por que não ir direto ao ponto e estabelecer uma mitologia em torno desse messias guerreiro, feito de sangue e raiva, que salva seu povo, seus genes, suas fêmeas e seus antigos avalistas do dogma político e racial dos inimigos, ou seja, de todos aqueles que não aceitam ou não se submetem à sua doutrina. — E os adultos? — Chegaremos aos adultos apelando para sua frustração. A medida que a vida avança e eles são obrigados a renunciar aos sonhos e desejos da juventude, cresce a sensação de que são vítimas do mundo e dos outros. Sempre encontramos alguém que é culpado por nossos infortúnios ou fracassos, alguém a quem queremos excluir. Abraçar uma doutrina que concretize esse rancor e vitimismo reconforta e dá forças. Assim, o adulto se sente parte do grupo e sublima por meio da comunidade os seus desejos e anseios perdidos. — Talvez — concedeu Corelli. — E toda essa iconografia da morte e de bandeiras e escudos? Não lhe parece contraproducente? — Não. Acho que são essenciais. O hábito faz o monge, mas sobretudo, o devoto. — E o que me diz das mulheres, da outra metade? Lamento, mas não consigo ver uma parte substancial das mulheres de uma sociedade acreditando em bandeirinhas e escudos. A psicologia do escoteiro é coisa de menino.