O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 212

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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— Interessante— comentou o patrão ao finalizar a décima e última página.— Peculiar, mas interessante.
Estávamos sentados num banco sob a sombra dourada do umbráculo, o jardim coberto, do Parque da Ciudadela. Cúpulas feitas de finas ripas filtravam a luz até reduzi-la a poeira de ouro e as plantas esculpiam o claro-escuro de sombras daquela estranha penumbra luminosa que nos rodeava. Acendi um cigarro e contemplei a fumaça subindo de meus dedos em espirais azuis.— Vindo de quem vem, peculiar é um adjetivo inquietante— comentei.— Usei peculiar em oposição a comum— precisou Corelli.— Mas...— Não tem mas, amigo Martín. Creio que você encontrou um caminho interessante e cheio de possibilidades.
Para um romancista, quando alguém diz que alguma de suas páginas é interessante e tem possibilidades é sinal de que as coisas não vão nada bem. Parece que Corelli leu minha apreensão.
— Você deu a volta na questão. Em vez de ir às referências mitológicas, começou pelas fontes mais prosaicas. Posso perguntar de onde tirou a idéia de um messias guerreiro em vez de pacífico?— De sua menção à biologia.— Tudo o que precisamos saber está escrito no grande livro da natureza. Basta ter a coragem e a clareza de espírito e de mente para ler— concordou Corelli.
— Um dos livros que consultei explicava que, no ser humano, o homem alcança o apogeu de fertilidade aos 17 anos de idade. A mulher, além de chegar mais tarde, o mantém por mais tempo, atuando, de certa forma, como seletor e juiz dos genes que aceita reproduzir e dos que rejeita. O homem, em troca, simplesmente oferece e se consome muito mais rápido. A idade em que alcança sua máxima potência reprodutiva é quando seu espírito combativo também está no auge. Um rapazinho é o soldado perfeito. Tem um grande potencial de agressividade e um nível crítico escasso ou nulo para analisar esse potencial e decidir como canalizá-lo. Ao longo da história, várias sociedades encontraram um meio de usar esse capital de agressão, transformando seus adolescentes em soldados, bucha de canhão com a qual conquistar os vizinhos ou se defender de seus