O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 193

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
nitidamente organizados descansava sobre a escrivaninha com os resumos de vários textos escolares de religião e catequese, junto com a correspondência do dia. Em um pratinho de café, havia um par de charutos havana que prendiam um perfume delicioso. Macanudos, uma das delícias caribenhas que o pai de Isabella obtinha por baixo do pano através de um contato na Tabacalera. Peguei um e acendi. Tinha um sabor intenso que fazia intuir que em seu alento lindo encontravam-se todos os aromas e venenos que um homem poderia desejar para morrer em paz. Sentei na escrivaninha e olhei a correspondência do dia. Ignorei tudo menos um envelope de pergaminho ocre, escrito com aquela caligrafia e poderia reconhecer em qualquer lugar. A carta de meu novo editor e mecenas, Andreas Corelli, marcava um encontro no domingo, no meio da tarde, no alto torre do novo teleférico que cruzava o porto de Barcelona.
A torre de San Sebastián erguia-se a 100 metros de altura num amontoado cabos e aço que dava vertigem só de olhar. A linha do teleférico tinha sido inaugurada naquele mesmo ano para a Exposição Universal, que deixou tudo cabeça para baixo e semeou Barcelona de maravilhas. O teleférico ia do cais do porto desde aquela primeira torre até uma grande sentinela central, com um certo ar de torre Eiffel, que servia de meridiano e da qual partiam as cabines suspensas no vazio, na segunda parte do trajeto até a montanha de Montjuïc, onde se localizava o coração da Exposição. O prodígio de técnica prometia vistas à cidade que até então só eram acessíveis a dirigíveis, aves de certa envergadura e pedras de granizo. Do modo como eu via as coisas, o homem e a gaivota não foram concebidos para partilhar o mesmo espaço aéreo e assim que pus os pés no elevador da torre, senti que meu estômago ia se encolhendo até ficar do tamanho de uma bolinha de gude. A subida me pareceu infinita; o pipocar aquela cápsula de latão, um puro exercício de náusea.
Encontrei Corelli olhando por uma das janelas que contemplavam o cais o porto e a cidade inteira, o olhar perdido nas aquarelas de velas e mastros que deslizavam sobre as águas. Vestia um terno de seda branca e brincava com um torrão de açúcar nas mãos, que logo em seguida tratou de engolir com voracidade lupina. Pigarreei e o patrão virou, sorrindo satisfeito.— Uma vista maravilhosa, não acha?— perguntou Corelli. Concordei, branco como papel.— Tem vertigem de altura?— Sou um animal da superfície— respondi, mantendo-me a uma distância prudente da janela.— Tomei a liberdade de comprar bilhetes de ida e volta— informou.