O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 190

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— As damas negras. Oito anos.— É verdade o que dizem, que as alunas dos colégios de freiras são as que guardam os desejos mais obscuros e inconfessáveis?— Aposto que ia adorar descobrir isso.— Pode apostar todas as suas fichas.— E o que mais aprendeu em seu cursinho intensivo de teologia para mentes perversas?
— Não muito. Minhas primeiras conclusões deixaram um gosto de banalidade e inconseqüência. Tudo isso já era mais ou menos evidente para mim, sem necessidade de digerir enciclopédias e tratados sobre o sexo dos anjos, talvez porque seja incapaz de superar meus preconceitos ou porque não haja o que entender e o X da questão esteja simplesmente em acreditar ou não, sem parar para pensar por quê. Mas que tal a minha retórica? Continua a impressioná-la?
— Ela me arrepia os cabelos. Uma pena não tê-lo conhecido nos meus anos de colegial com desejos obscuros.— Está sendo cruel, Eulalia. A bibliotecária riu com vontade e olhou-me longamente, olhos nos olhos.— Diga-me uma coisa, Ignatius B., quem partiu seu coração com tanta raiva?— Vejo que sabe ler mais que livros. Ficamos sentados na mesa alguns minutos, contemplando o vaivém dos garçons no salão da Casa Leopoldo.— Sabe o que é bom nos corações partidos?— perguntou a bibliotecária. Neguei.— É que só podem se partir de verdade uma vez. O resto são apenas arranhões.— Ponha isso em seu livro. Apontei seu anel de noivado.— Não sei quem é esse bobo, mas espero que saiba que é o homem mais feliz do mundo.
Eulalia sorriu com certa tristeza e fez que sim. Voltamos à biblioteca, cada um para seu lugar, ela em sua escrivaninha, eu no meu canto. Despedi-me dela no dia seguinte, quando resolvi que não podia, nem queria ler nem mais uma linha sobre revelações e verdades eternas. A caminho da biblioteca, comprei uma rosa branca numa banca na Rambla e deixei em sua escrivaninha vazia. Encontrei com ela num dos corredores, organizando livros.