O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 184

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
que para isso tivesse que manter a ficção de que seria minha assistente durante o dia. Torres mais altas já tinham caído.
Ao entrar em casa, encontrei-a sentada na mesa da cozinha. Tinha lavado todos os pratos da noite anterior, feito café e estava vestida e penteada como um santinho de papel. Isabella, que nada tinha de boba, sabia perfeitamente de onde eu estava chegando: armou-se com seu melhor olhar de cachorrinho abandonado e sorriu, submissa. Deixei duas sacolas com o lote de delícias de dom Odón sobre a pia e encarei-a.— Meu pai não atirou em você?— A munição tinha acabado e, em vez disso, ele resolveu jogar todos esses potes de geléia e pedaços de queijo da Mancha em cima de mim. Isabella apertou os lábios e assumiu um ar de gravidade.— De modo que o geniozinho de Isabella vem da vovó?— A mamma— confirmou.— Era chamada de Vesúvio no bairro onde morava.— Posso acreditar.— Dizem que pareço um pouco com ela. Na persistência. Não era mesmo necessário que um juiz lavrasse uma ata para confirmar isso, pensei.— Seus pais são gente boa, Isabella. Não são menos capazes de compreendê-la do que você a eles. A moça não disse nada. Serviu uma xícara de café e esperou pelo veredicto. Tinha duas opções: jogá-la na Rua e matar os dois comerciantes de desgosto ou fazer das tripas coração e encher-me de paciência por dois ou três dias. Supus 48 horas de minha encarnação mais cínica e cortante seriam suficientes para quebrar a férrea determinação da garota e mandá-la de volta para as saias da mãe implorando perdão de joelhos e alojamento com pensão completa.— Pode ficar aqui por enquanto...— Obrigada!— Calma. Pode ficar com as seguintes condições: um, passar todos os dias no armazém para cumprimentar seus pais e dizer que está bem; dois, obedecer-me e seguir as normas da casa.
Aquilo soava patriarcal, mas excessivamente acovardado. Mantive um semblante severo e resolvi reforçar um pouco o tom.— E quais são as normas da casa?— inquiriu Isabella.— Basicamente, o que me der na telha.— Parece justo.