O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 166
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Isabella foi me soltando aos poucos. Dei alguns passos em direção ao corredor.
Isabella me seguia de perto, como se temesse que desabasse de uma hora para a outra.
Parei em frente ao banheiro.
— Posso urinar a sós? — perguntei.
— Vá com cuidado — sussurrou a moça. — Vou deixar seu café-da-manhã na galeria.
— Não tenho fome.
— Precisa comer alguma coisa.
— Afinal, é minha aprendiz ou minha mãe?
— Estou falando para o seu bem.
Fechei a porta do banheiro e refugiei-me lá dentro. Meus olhos demoraram alguns
segundos para se ajustar ao que viam. O banheiro estava irreconhecível. Limpo e
reluzente. Cada coisa em seu lugar. Um sabonete novo no lavabo. Toalhas limpas que eu
nem sabia que possuía. Cheiro de água sanitária.
— Deus do céu — murmurei.
Enfiei a cabeça embaixo da torneira e deixei a água fria escorrer durante alguns
minutos. Saí para o corredor e caminhei lentamente para a galeria. Se o banheiro estava
irreconhecível, a galeria pertencia a um outro mundo. Isabella tinha limpado os vidros e o
chão, arrumado móveis e cadeiras. Uma luz pura e clara se filtrava pelas vidraças e o
cheiro de poeira tinha desaparecido. Meu café-da-manhã me esperava na mesa em frente
ao sofá, sobre o qual a moça tinha colocado uma manta limpa. As prateleiras cheias de
livros pareciam organizadas e as vitrines da estante tinham recuperado a transparência.
Isabella estava servindo uma segunda xícara de café.
— Sei muito bem o que está fazendo, mas não vai funcionar — disse.
— Encher outra xícara de café?
Isabella tinha organizado os livros espalhados em pilhas sobre as mesas e pelos
cantos. Tinha esvaziado porta-jornais que estavam abarrotados há mais de uma década.
Em apenas sete horas, tinha varrido de um só golpe anos e anos de penumbra e trevas
com sua disposição e sua presença e ainda encontrava tempo e vontade de sorrir.
— Por mim, estava melhor antes — disse eu.
— Com certeza. Para você e para suas inquilinas, as 100 mil baratas que despachei
com ar fresco e amoníaco.
— Então é isso o fedor que estou sentindo?
— Esse fedor é cheiro de limpo — protestou Isabellla. — Poderia ficar pelo menos um
pouco agradecido.