O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 137
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Tudo o que lembro eu já contei para o inspetor que veio essa manhã. Ele perguntou
de você.
— Um inspetor? Por mim?
— Estão falando com todo mundo.
— Claro.
A Veneno me olhava fixamente, com desconfiança, como se tentasse ler meus
pensamentos.
— Não sabem se sairá vivo dessa — murmurou, referindo-se a Escobillas. — Não
sobrou nada, os arquivos, os contratos... Tudo. A editora acabou.
— Sinto muito, Hermínia.
Um sorriso retorcido e malicioso aflorou a seus lábios.
— Sente? Não é isso que queria?
— Como pode pensar uma coisa dessas?
A Veneno olhou-me com receio.
— Agora está livre.
Fiz menção de tocar seu braço, mas Hermínia levantou e retrocedeu um passo, como
se minha presença lhe causasse medo.
— Hermínia...
— Saia daqui — disse.
Deixei Hermínia entre as ruínas fumegantes. Ao sair para a Rua, tropecei num grupo
de crianças que remexia as pilhas de escombros. Uma delas tinha desenterrado um livro
entre as cinzas e o examinava com uma mescla de curiosidade e desdém. A capa tinha se
apagado sob as chamas e a borda das páginas estava chamuscada, mas de resto o livro
estava intacto. Soube pelo nome gravado na lombada que se tratava de um dos episódios
de A Cidade dos Malditos.
— Sr. Martín.
Virei e dei de cara com três homens metidos em ternos baratos que não combinavam
com o calor úmido e pegajoso que flutuava no ar. Um deles, que parecia ser o chefe,
adiantou-se um passo e deu um sorriso cordial, de vendedor experimentado. Os outros
dois, que tinham a constituição e o temperamento de uma prensa hidráulica, limitaram-se a
lançar um olhar abertamente hostil.
— Sr. Martín, sou o inspetor Víctor Grandes e esses são meus colegas, agentes
Marcos e Castelo, do Corpo de Investigação e Vigilância. Pergunto-me se teria a
amabilidade de nos dar alguns minutos.