O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 136

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Hospital Clínico, onde a primeira já chegou morta e as outras permanecem internadas em estado muito grave. Cheguei tão rápido quanto pude. Dava para sentir o cheiro de queimado desde a Rambla. Um grupo de vizinhos e curiosos estava reunido na praça diante do edifício. Fiapos de fumaça branca subiam de um monte de escombros empilhados na entrada. Reconheci vários empregados da editora tentando salvar das ruínas o pouco que tinha restado. Caixas com livros chamuscados e móveis lambidos pelas chamas se amontoavam na Rua. A fachada tinha ficado enegrecida, as janelas, arrebentadas pelo fogo. Rompi o círculo de bisbilhoteiros e entrei. Um fedor intenso grudou em minha garganta. Alguns dos trabalhadores da editora, agitados no afã de resgatar seus pertences, me reconheceram e me cumprimentaram cabisbaixos. — Sr. Martín... Uma grande desgraça — murmuraram. Atravessei o que tinha sido a recepção e fui para os escritórios de Barrido. As chamas tinham devorado os tapetes e reduzido os móveis a esqueletos em brasa. A sanca, desmoronada num canto, tinha aberto uma via de luz para o pátio traseiro. Um facho de cinzas flutuantes atravessava a sala. Uma cadeira tinha sobrevivido milagrosamente ao incêndio. Estava no centro da sala e nela encontrei a Veneno, chorando com os olhos baixos. Ajoelhei-me diante dela. Reconheceu-me e sorriu por entre as lágrimas. — Você está bem? — perguntei. Fez que sim. — Ele me disse para ir embora, sabe? Disse que já era tarde e que fosse descansar porque hoje teríamos um dia muito longo. Estávamos fechando toda a contabilidade do mês... Se tivesse ficado um minuto a mais... — O que aconteceu, Herminia? — Ficamos trabalhando até tarde. Era quase meia-noite quando o Sr. Barrido disse que podia ir para casa. Os editores estavam esperando por um cavalheiro, que viria encontrá-los... — À meia-noite? Que cavalheiro? — Um estrangeiro, acho. Tinha alguma coisa a ver com uma proposta, não sei bem. Teria ficado de bom grado, mas era tarde e o Sr. Barrido disse... — Herminia, por acaso se lembra do nome desse cavalheiro? A Veneno me olhou com estranheza.