PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Sim— confessei.— Por favor, volte para a sala e sente-se. Dê-me a oportunidade de explicar melhor. O que tem a perder?— Nada, acredito eu. Apoiou sua mão em meu braço com delicadeza. Tinha os dedos longos e pálidos.— Não tem nada a temer de mim, Martín. Sou seu amigo. Seu tato era reconfortante. Deixei-me levar de volta para a sala e sentei-me docilmente, como um menino esperando as palavras de um adulto. Corelli ajoelhou-se junto à cadeira e pousou seu olhar no meu. Tomou minha mão e apertou-a com força.— Você quer viver? Quis responder, mas não encontrei palavras. Percebi que tinha um nó na garganta e que meus olhos se enchiam de lágrimas. Até então, não tinha compreendido o quanto desejava continuar a respirar, continuar a abrir os olhos toda manhã e sair para a Rua, pisar as pedras e ver o céu e, sobretudo, continuar recordando. Fiz que sim.— Vou ajudá-lo, amigo Martín. Só peço que confie em mim. Aceite minha proposta.
Deixe-me ajudá-lo. Deixe que lhe dê o que mais deseja. Essa é a minha promessa. Fiz que sim de novo.— Aceito. Corelli sorriu e inclinou-se sobre mim para beijar meu rosto. Tinha os lábios frios como gelo.— Eu e você, meu amigo, vamos fazer grandes coisas juntos. Você verá— murmurou. Ofereceu-me um lenço para que secasse as lágrimas. Eu o fiz sem sentir a vergonha muda de chorar diante de um estranho, algo que não fazia desde a morte de meu pai.— Está esgotado, Martín. Passe a noite aqui. Nessa casa há quartos sobrando.
Garanto que vai se sentir melhor amanhã e verá as coisas com mais clareza.
Dei de ombros, mas sabia que Corelli tinha razão. Mal me segurava em pé e só o que desejava era dormir profundamente. Não tinha ânimo nem para levantar daquela poltrona, a mais cômoda e acolhedora da história universal de todas as poltronas.— Se não se importa, prefiro ficar aqui mesmo.— Claro. Vou deixá-lo descansar. Logo estará se sentindo bem melhor. Dou-lhe a minha palavra. Corelli foi até a cômoda e apagou a lamparina a gás. A sala mergulhou na penumbra azul. Minhas pálpebras pesavam e uma sensação de embriaguez me inundava a cabeça,