O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 127

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA sentou-se de novo, sem dizer uma palavra. O envelope estava aberto e em seu interior entreviam-se vários maços de notas de cem francos. Uma fortuna. — Guarda todo esse dinheiro numa gaveta e deixa a porta aberta? — perguntei. — Pode contar. Se for insuficiente, me diga o preço. Já disse que não discutiríamos por questões de dinheiro. Olhei para aquele pedaço de fortuna durante um longo instante e, finalmente, neguei. Pelo menos, eu o tinha visto. Era real. A proposta, assim como a vaidade que me comprava naqueles momentos de miséria e desesperança, eram reais. — Não posso aceitar — disse. — Pensa que é dinheiro sujo? — Todo dinheiro é sujo. Se fosse limpo ninguém ia querer. Mas o problema não é esse. — E então? — Não posso aceitar porque não posso aceitar sua proposta. Não poderia nem que quisesse. Corelli considerou minhas palavras. — Posso lhe perguntar por quê? — Porque estou morrendo, Sr. Corelli. Porque me restam apenas algumas semanas de vida, talvez dias. Porque já não tenho mais nada a oferecer. Corelli baixou os olhos e mergulhou num longo silêncio. Ouvi o vento arranhando as janelas e arrastando-se sobre a casa. — Não me diga que não sabia — acrescentei. — Intuía. Corelli permaneceu sentado, sem me olhar. — Há muitos outros escritores que podem escrever esse seu livro, Sr. Corelli. Agradeço sua oferta. Mais do que imagina. Boa-noite. Dirigi-me para a saída. — Digamos que poderia ajudá-lo a superar sua enfermidade — disse ele. Parei no meio do corredor e virei. Corelli estava apenas dois palmos atrás de mim, olhando-me fixamente. Tive a impressão de que estava mais alto do que quando o tinha visto pela primeira vez no corredor e que seus olhos eram maiores e mais escuros. Pude ver meu reflexo em suas pupilas, encolhendo à medida que estas se dilatavam. — Meu aspecto o perturba, amigo Martín? Engoli em seco.