O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 102

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 18 Na manhã seguinte recebi duas visitas de cortesia. A primeira foi de Pep, o novo motorista de Vidal. Trazia um recado do patrão convocando-me para um almoço na Maison Dorée, sem dúvida o banquete de comemoração que tinha me prometido meses atrás. Pep parecia tenso e ansioso para ir embora o quanto antes. A relação de cumplicidade que costumava ter comigo tinha se evaporado. Não quis entrar e preferiu esperar na porta. Estendeu o bilhete que Vidal tinha escrito sem me olhar nos olhos e, assim que eu disse que compareceria ao encontro, foi embora sem se despedir. A segunda visita, meia hora depois, trouxe à minha porta os meus dois editores acompanhados de uma terceira pessoa de aspecto taciturno e olhar penetrante, que se identificou como advogado da casa. Tão formidável trio exibia uma expressão entre o luto e a beligerância, que não deixava lugar a dúvidas quanto à natureza da visita. Pedi que passassem para a galeria, onde foram se acomodando, alinhados da direita para a esquerda no sofá por ordem decrescente de altura. — Posso lhes oferecer alguma coisa? Uma tacinha de cianureto? Não esperava um sorriso e não o tive. Depois de uma breve introdução de Barrido sobre os terríveis prejuízos que o fracasso de Os Passos do Céu ia causar à editora, o advogado deu início a uma exposição sumária na qual dizia, como um paladino romântico, que se não voltasse ao trabalho, na encarnação de Ignatius B. Samson, e entregasse um manuscrito de A Cidade dos Malditos em um mês e meio, entrariam com um processo contra mim por descumprimento de contrato, por perdas e danos e cinco ou seis cláusulas que me escaparam, pois já tinha deixado de prestar atenção. Mas nem tudo eram más notícias. Apesar dos dissabores provocados por minha conduta, Barrido e Escobillas encontraram em seu coração uma pérola de generosidade com a qual limar as arestas e sedimentar uma nova aliança de amizade e proveito. — Se desejar, pode adquirir por um custo preferencial de setenta por cento do preço de venda, todos os exemplares de Os Passos do Céu, já que constatamos que não há demanda pelo título e portanto, não será possível incluí-lo na próxima remessa — explicou Escobillas. — Por que não me devolvem os direitos? Afinal, não pagaram um tostão por eles e não têm intenção de vender um exemplar que seja.