O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 100

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 17 Ao sair de lá, vaguei pelas Ruas de Barcelona durante horas, sem rumo. Sentia dificuldade para respirar e que algo me oprimia o peito. Um suor frio cobria minha testa e minhas mãos. Ao anoitecer, sem saber onde me esconder, tomei o caminho de volta para casa. Ao passar diante da livraria de Sempere e Filhos, vi que o livreiro tinha enchido sua vitrine de exemplares do meu romance. Já era tarde e a loja estava fechada, mas ainda havia luz e quando quis apertar o passo, vi que Sempere tinha percebido minha presença e sorria para mim com uma tristeza que nunca tinha visto em todos aqueles anos de convivência. — Entre um pouquinho, Martín. — Outra dia, Sr. Sempere. — Faça isso por mim. Pegou meu braço e me arrastou para dentro da livraria. Fui atrás dele até o fundo da loja, onde me ofereceu uma cadeira. Serviu dois copos com algo que parecia mais espesso que alcatrão e fez um sinal para que bebesse de um só gole. Ele fez o mesmo. — Estive folheando o livro de Vidal — disse ele. — O sucesso da temporada — comentei. — Ele sabe que foi você quem escreveu? Dei de ombros. — E o que isso importa? Sempere pousou em mim o mesmo olhar com o qual tinha recebido o moleque de 8 anos, no dia longínquo em que ele se apresentou em sua casa ferido e com os dentes quebrados. — Você está bem, Martín? — Perfeitamente. Sempere fez que não em silêncio e levantou para pegar alguma coisa na estante. Vi que se tratava de um exemplar do meu romance, que me entregou junto com uma caneta e sorriu. — Faria a gentileza de escrever uma dedicatória? Assim que o fiz, Sempere pegou o livro de minhas mãos e dedicou-lhe um espaço na vitrine de honra, atrás do balcão, onde guardava as primeiras edições que não estavam à venda. Era o santuário particular de Sempere.