O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 100
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Ao sair de lá, vaguei pelas Ruas de Barcelona durante horas, sem rumo. Sentia
dificuldade para respirar e que algo me oprimia o peito. Um suor frio cobria minha testa e
minhas mãos. Ao anoitecer, sem saber onde me esconder, tomei o caminho de volta para
casa. Ao passar diante da livraria de Sempere e Filhos, vi que o livreiro tinha enchido sua
vitrine de exemplares do meu romance. Já era tarde e a loja estava fechada, mas ainda
havia luz e quando quis apertar o passo, vi que Sempere tinha percebido minha presença
e sorria para mim com uma tristeza que nunca tinha visto em todos aqueles anos de
convivência.
— Entre um pouquinho, Martín.
— Outra dia, Sr. Sempere.
— Faça isso por mim.
Pegou meu braço e me arrastou para dentro da livraria. Fui atrás dele até o fundo da
loja, onde me ofereceu uma cadeira. Serviu dois copos com algo que parecia mais
espesso que alcatrão e fez um sinal para que bebesse de um só gole. Ele fez o mesmo.
— Estive folheando o livro de Vidal — disse ele.
— O sucesso da temporada — comentei.
— Ele sabe que foi você quem escreveu?
Dei de ombros.
— E o que isso importa?
Sempere pousou em mim o mesmo olhar com o qual tinha recebido o moleque de 8
anos, no dia longínquo em que ele se apresentou em sua casa ferido e com os dentes
quebrados.
— Você está bem, Martín?
— Perfeitamente.
Sempere fez que não em silêncio e levantou para pegar alguma coisa na estante. Vi
que se tratava de um exemplar do meu romance, que me entregou junto com uma caneta
e sorriu.
— Faria a gentileza de escrever uma dedicatória?
Assim que o fiz, Sempere pegou o livro de minhas mãos e dedicou-lhe um espaço na
vitrine de honra, atrás do balcão, onde guardava as primeiras edições que não estavam à
venda. Era o santuário particular de Sempere.