1980, a partir da Lei da Anistia de 1979 e daí até a promulgação da Constituição de 1988.
Para isso era preciso não só repensar a identidade política e social brasileira como também as bases culturais sobre as quais se sustentava o Patrimônio Histórico Brasileiro, enquanto elemento dessa mesma identidade no sentido amplo. A elevação da cidade de Ouro Preto a Monumento Nacional, em 1937, definiu um marco a partir do qual seria tecida uma boa parte da História do Brasil. Afinal, estávamos diante de uma cidade barroca plena de mensagens icônicas. Para Aloísio Magalhães, o fundador da Pró-Memória, a ênfase a ser dada nessa tarefa implicava ressaltar a dimensão politico-cultural do país, até como forma de religar o Brasil fragmentado pelos tempos ditatoriais, a cultura como parte do desenvolvimento da nação – inclusive no plano econômico. No campo das ideias, Aloísio aproximava-se do criador do projeto de Patrimônio, Mário de Andrade, buscando as características fundamentais da brasilidade onde as manifestações culturais espontâneas valorizadas pela população em geral pudessem servir de referência para a retomada do nosso desenvolvimento. Ou seja, a questão da identidade, posta com tanta clareza pelo Mário, ampliava-se significativamente agora com Aloísio, para quem a nossa autenticidade cultural pressupunha também a criação de uma marca brasileira voltada para a economia de mercado. Tratava-se de um homem contemporâneo, um trabalhador do designer e das artes gráficas, que concebia o artesanato enquanto uma importante expressão de brasilidade, e ainda como atividade pré-industrial em fase quase de desaparecimento, sendo necessário então documentá-lo e, em uma outra fase, tentar influir sobre ele, ajudando na sua dinamização.
Retornando à questão do papel da memória, acreditamos que ela possa ser vista como um campo de disputas, e na luta pela sua construção, debatem-se leituras diferenciadas que muitas vezes colidem ou então até se complementam entre si. Por isso, é necessário que as análises decorrentes de uma dada experiência sejam revistas no decorrer do tempo, para que seu nível de compreensão se amplie. Este é o caso do meu trabalho, qual seja, situar na perspectiva social e política as divergências surgidas em Ouro Preto, nos idos de 1980, em relação à organização do programa Pró-Memória com base na minha experiência em Ouro Preto como assessora da Fundação Roberto Marinho. Na condição de socióloga, procurei vincular a discussão do Patrimônio, no
Ouro Preto: cidade patrimônio na democratização
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