O impeachment de Dilma Rousseff IMPEACHMENT_AZEDO | Page 42
Júlio César decidiu atravessá-lo e desafiar o Senado romano. Como
era proibido entrar em Roma com tropas, sua decisão provocou
uma guerra civil entre suas forças e as de Pompeu, o Grande. Dessa
atitude audaciosa, nasceu o Império Romano e a expressão famosa,
“atravessar o Rubicão”, que representa uma decisão arriscada e
sem volta, sintetizada na expressão latina Alea jacta est, ou seja, a
sorte está lançada.
Esta é a situação do vice-presidente Michel Temer, depois do
vazamento da gravação na qual anuncia suas intenções, no caso de
o impeachment ser aprovado pela Câmara e ter que assumir a
Presidência. O vice não é um general romano, nem estamos à beira
de uma guerra civil, embora a narrativa do golpe, repetida dia sim
e outro também pela presidente Dilma Rousseff, se fosse o mesmo
o caso, devesse considerar essa hipótese. Também não é um Forrest
Gump, aquele personagem do romance de Winston Groom que
virou blockbuster de Hollywood. O herói inte rpretado por Tom
Hanks não parecia talhado para coisa alguma, mas teve uma exis-
tência extraordinária, pois tudo dava certo para ele.
Em circunstâncias normais, a gafe de Temer – há controvér-
sias sobre isso, a presidente Dilma Rousseff está convencida de que
seu vazamento foi proposital – levaria o vice-presidente da Repú-
blica ao mais absoluto ostracismo, com a pecha de traidor e trapa-
lhão. Mas, na crise que o país vive, com a aprovação da admissibi-
lidade do pedido de impeachment pela Comissão Especial da
Câmara, por um escore de 38 a favor e 27 contra, Temer se parece
mais com aquele príncipe de Maquiavel que deixou a prudência de
lado para apostar tudo na Fortuna e, assim, chegar ao poder.
O pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff
agora é como as águas de um rio que chegam à barra com a maré
vazante: arrastam tudo pelo caminho. Por isso, a presidente vai
à guerra, desde a segunda-feira. Na contabilidade da oposição,
são 334 votos a favor do impeachment e 140 contra, com 39
indecisos. A blindagem do governo está sendo rompida porque
as negociações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com
as cúpulas dos partidos aliados, para as quais oferecia cargos e
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O impeachment de Dilma Rousseff – Crônicas de uma queda anunciada