Em muitas províncias as propriedades eram conservadas pelos nobres , sendo as classes trabalhadoras apenas arrendatárias ; achavam-se à mercê dos proprietários e obrigados a sujeitarse às suas exigências escorchantes . O encargo de sustentar tanto a Igreja como o Estado recaía sobre as classes média e baixa , pesadamente oneradas pelas autoridades civis e pelo clero . “ O capricho dos nobres arvorava-se em lei suprema ; os lavradores e camponeses podiam perecer de fome sem que isso comovesse os opressores . ... O povo era obrigado a consultar sempre o interesse exclusivo do proprietário . A vida dos trabalhadores agrícolas era de labuta incessante e miséria sem alívio ; suas queixas , se é que ousavam queixar-se , eram tratadas com insolente desprezo . Os tribunais de justiça ouviam sempre ao nobre de preferência ao camponês ; os juízes aceitavam abertamente o suborno , e o mais simples capricho da aristocracia tinha força de lei , em virtude deste sistema de corrupção universal . Dos impostos extorquidos do povo comum , pelos magnatas seculares de um lado e pelo clero do outro , nem a metade sequer tinha acesso ao tesouro real ou episcopal ; o resto era desbaratado em condescendências imorais . E os mesmos homens que assim empobreciam seus compatriotas , estavam isentos de impostos , e , pela lei e costumes , com direitos a todos os cargos do Estado . Os membros das classes privilegiadas orçavam por uns cento e cinqüenta mil , e para a satisfação delas , milhões estavam condenados a levar uma vida de degradação irremediável .”
A corte achava-se entregue ao luxo e à libertinagem . Pouca confiança existia entre o povo e os governantes . Prendia-se a todos os atos do governo a suspeita de serem mal-interpretados e egoístas . Durante mais de meio século antes do tempo da Revolução , o trono foi ocupado por Luís XV que , mesmo naqueles maus tempos , se distinguiu como monarca indolente , frívolo e sensual . Com uma aristocracia depravada e cruel , uma classe inferior empobrecida e ignorante , achando-se o Estado em embaraços financeiros , e o povo exasperado , não se necessitava do olhar de profeta para prever uma iminente e terrível erupção . Às advertências de seus conselheiros estava o rei acostumado a responder : “ Procurai fazer com que as coisas continuem tanto tempo quanto eu provavelmente possa viver ; depois de minha morte , seja como for .” Era em vão que se insistia sobre a necessidade de reforma . Ele via os males , mas não tinha nem a coragem nem a força para enfrentá-los . Sua resposta indolente e egoísta sintetizava , com verdade , a sorte que aguardava a França : “ Depois de mim , o dilúvio !”
Valendo-se dos ciúmes dos reis e das classes governantes , Roma os influenciara a conservar o povo na escravidão , bem sabendo que o Estado assim se enfraqueceria , tendo por este meio o propósito de firmar em seu cativeiro tanto príncipes como o povo . Com política muito previdente , percebeu que , para escravizar os homens de modo eficaz , deveria algemarlhes a alma ; que a maneira mais certa de impedi-los de escapar de seu cativeiro era torná-los incapazes de libertar-se . Mil vezes mais terrível do que o sofrimento físico que resultava de sua política , era a degradação moral . Despojado da Escritura Sagrada , e abandonado ao ensino do fanatismo e egoísmo , o povo estava envolto em ignorância e superstição , submerso no vício , achando-se , assim , completamente inapto para o governo de si próprio .
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