Ano XIV | Edição 34 | 62
O Construtor da Revolução de 1817
Para atender a convite do comendador
Elânio Pereira, Venerável Mestre do Areó-
pago de Itambé, compareci àquela Loja
Maçônica no dia 6 de março, para, com a
comunidade ali presente, relembrarmos a
revolução republicana de 1817. Estive em
companhia do Presidente da Academia Ma-
çônica de Artes e Letras do Recife, o imortal
acadêmico Carlos Frederico Lopes de Bar-
ros, admirável pesquisador dos gloriosos
feitos da ordem maçônica em Pernambuco.
Desejava, na oportunidade, fazer refe-
rência a Manoel Arruda da Câmara que,
embora tenha fundado o Areópago, onde se
doutrinou o povo para a construção de uma
pátria para os brasileiros, sua existência é tra-
zida ao conhecimento das gerações de hoje
como um ilustre cientista com sucesso total
nos campos da botânica. Foi por seu inter-
médio que a maçonaria ingressou no Brasil,
em 1796, ao fundar o Areópago de Itambé,
que a partir de 1996, durante as comemo-
rações de seu bicentenário, foi reconhecido
como o berço da maçonaria brasileira.
Manuel Arruda da Câmara é paraibano,
nascido em Pombal, no ano de 1752. Vamos
encontrá-lo, 31 anos depois, no Convento
dos Carmelitas, em Goiana, mata norte de
Pernambuco, como Frei Manuel do Cora-
ção de Jesus. Fez votos em 25.11.1783.
Goiana, então, era um centro populacio-
nal já bastante evoluído e por ali passavam e
repousavam, oriundos do Recife, viajantes,
vendedores, pesquisadores, comerciantes,
jornalista, profissionais liberais, religiosos,
pessoas cultas e influentes, que demanda-
vam a Paraíba, Rio Grande do Norte, os ser-
tões de Pernambuco ou faziam o caminho
inverso, buscando a cidade do Recife.
É possível que, em contato com essas
pessoas, tenha o Frei Manuel do Coração de
Jesus ouvido falar do grande esforço que já
se fazia na América Espanhola, no sentido
de torná-la independente, como ocorrera na
América Inglesa. O entusiasmo e a decisão
do Frei podem ter encontrado vertente em
tais informações.
Pretextando o aperfeiçoamento teológi-
co, o Frei embarca para Lisboa e lá chegan-
do matricula-se nos cursos de Filosofia de
Coimbra (27.10.1789). Mas não prossegue,
tendo sido, ali, perseguido em face do elogio
que fazia às causas da Revolução Francesa.
Aparece em Montpellier, centro universitá-
rio e laboratório político do sul da França,
onde fez seu curso de Medicina, matriculan-
do-se em 15.08.1790 e defendendo tese em
02.09.1791. Também adquiriu grande saber
em Botânica, nela especializando-se. Segun-
do consta, aí em Montpellier fora iniciado
nos augustos mistérios e despertado para
a importância da emancipação política da
América portuguesa. Teve o privilégio de co-
nhecer o Velho Mundo, em atividade de pes-
quisa, parte em companhia de José Bonifácio.
No inverso de 1796, já ex Frade, médico,
mas dedicando-se a botânica, Manuel Arru-
da da Câmara instala o Areópago de Itambé
em companhia de vários outros sábios com
e sem batina, objetivando doutrinar o povo
e treinar adeptos para a construção da Pátria
dos brasileiros.
A primeira tentativa prática se deu em
1801 – a Conspirata de Suassuna – que pre-
conizava a instalação de uma República sob
a proteção de Napoleão Bonaparte. Resul-
tou frustrado o ensaio, com o conseqüen-
te fechamento do Areópago. No entanto o
entusiasmo pela causa se exacerbou, trans-
ferindo-se o foco do movimento para Recife
e seu entorno, onde várias Lojas Maçônicas,
disfarçadas de Academias, foram surgindo
para agasalhar e doutrinar os novos adeptos
à medida que estes cresciam em quantidade.
Em outubro de 1810, Manuel Arruda
da Câmara se encontrava na Ilha de Itama-
racá e de lá escreve uma carta a seu afilhado
João Ribeiro (Padre), antevendo, para logo,
a Revolução Republicana. E como se reve-
lasse muito doente e até previsse iminente
sua morte, fazia algumas recomendações em
favor da abolição da escravatura com inclu-
são social dos libertos, e da amizade com os
irmãos das Américas inglesa e espanhola que
deveria ser intensificada. Faleceu no início
do ano seguinte.
O respeitável e inesquecível irmão Má-
rio Melo escreveu em livro publicado em
1912 que o Areópago de Itambé foi a pri-
meira escola destes ensinamentos instalada
entre nós e ali pontificava o Dr. Arruda da
Câmara. O Areópago segundo entende era
uma Loja Maçônica nos moldes das existen-
tes em Montpellier, onde Arruda da Câmara
havia sido iniciado. Dr. José Castellani con-
firma esta condição de Loja e inclui o Dr
Arruda da Câmara no rol dos maçons que
fizeram a História do Brasil. Enfim, o histo-
riador Amaro Quintas, escrevendo um dos
livros mais lidos sobre a Revolução de 1817,
assegura que Manuel Arruda da Câmara foi
o construtor da Revolução.
Então que se exalte o seu feito e se regis-
tre o título que merece.
OBRAS CONSULTADAS:
1) O Areópago de Itambe, Ferreira, An-
tônio do Carmo, editora maçônica A TRO-
LHA, Londrina/PR. 2) Os Maçons que Fi-
zeram a História do Brasil, Castellani, José,
Editora A Gazeta Maçônica, São Paulo, pági-
na 21. 3) A Maçonaria e a Revolução Repu-
blicana de 1817, Melo, Mário, Imprensa In-
dustrial I. Nery da Fonseca, Recife/PE, 1912.
4) A Revolução de 1817, Quintas, Amaro,
José Olimpio Editora, Rio, 1985 2ª edição.
Ir.’. Antônio do Carmo Ferreira
Presidente da ABIM
SEJA HUMILDE
A vaidade é o pior dos defeitos,
porque engana a nós mesmos.
Por mais que seja sábio,
há sempre alguém mais sábio
que você.
Por mais forte que seja,
haverá alguém mais forte.
Portanto, seja humilde.
Envaidecer-se de quê?
A vaidade nos faz perder o
sentido das proporções,
e acabamos caindo no ridículo,
porque nos enganamos
a nós