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Conhecer a minha afilhada foi como ver um sonho ganhar forma diante dos meus olhos. A sensação de saber que, mesmo de forma pequena, estou a contribuir para a sua educação, é de uma honra que não se explica, apenas se sente com o coração. Fui luz num momento de construção, onde uma menina começa a tornar-se mulher e esse encontro, esse laço, será para sempre um dos marcos mais profundos e inesquecíveis da minha vida … e tenho a certeza, da dela também.
Quero continuar a ser essa luz para muitas outras crianças, porque eu também já fui uma delas. E sei, com toda a certeza, que esse gesto, esse cuidado, faz toda a diferença na construção de um ser humano.
Sobre essa viagem a São Tomé … impactou tanto o meu ser, que volto com outra energia, com o coração mais cheio, mais grato, mais desperto. Uma das últimas frases que disse foi:“ Eu fui ver uma estrela … e acabei vendo uma constelação inteira.” Para mim, a Helpo é isso, um universo cheio de estrelas a brilhar e a iluminar vidas. E agora, uma dessas luzes também vive em mim. Jane Ferreira
Há alguns anos que abracei a Helpo, como voluntária e como madrinha, mas, depois da viagem a São Tomé, o meu abraço ganhou mais braços. Braços que se entrelaçaram nos meus, fazendo deles uma extensão do meu coração, disposto a dar tudo a quem nada pedia, apenas sorria e me aceitava com toda a simplicidade e generosidade.
Há 30 anos que sou professora do 1.º Ciclo e o que senti, no seio de dezenas de crianças, das mais diversas escolas e comunidades, foi indescritível, uma vez que a atração era mútua e, quando dava por mim, já estávamos a trocar canções, histórias, cócegas, sorrisos e carinhos, como se nos conhecêssemos desde sempre. O difícil foi despedir-me de cada um desses abraços, sem saber o que lhes reserva o destino, mas na esperança que seja algo de muito bom.
Num turbilhão de emoções, no meio dos cenários mais marcantes para muitos, curiosamente, não me senti“ deslocada”. Antes pelo contrário, o meu coração mostroume que o meu lugar era aquele e que os meus abraços faziam todo o sentido. Por estranho que pareça, o desconforto foi quando regressei à minha realidade, onde a falta dos meninos e do povo de São Tomé me confirmou o que há muitos anos anseio- a vontade de partir, um dia, numa missão relacionada com a educação, para junto desses meninos e meninas, que estão todos os dias no meu pensamento.
Esta viagem permitiu-me conhecer a minha afilhada, tornando esse momento único e mágico para todos. Ser madrinha da Helpo passou a ter muito mais significado, pois a distância converteu-se em abraços sentidos, em sorrisos tímidos, mas gratos, em sentimentos inesperados, em saudade e em esperança do reencontro.