MOÇAMBIQUE
reencontro.
Nampula, Pe. Carlos Jacob
“Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acaba cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”
Sophia de Mello Breyner Andresen
A
“janela do Índico” abriu-se. Viajante solitário, no iní-
cio, embebedava-me com o espanto da transforma-
ção dos centros urbanos. Tanta, mas tanta mudança!
O regresso inesperado, proporcionado pela Helpo, tornava-
-me sonhador dos outros tempos. Queria abraçar aquela gen-
te, sentir como outrora os anseios e as inquietações. Sonâm-
bulo, incrédulo, ansiava pelo dia da inauguração das duas
escolas em Munimaca e Mahunha.
Abri os cortinados das minhas seguranças e parti. A Missão
do Marrere, submersa sob um céu estrelado, preparava-se
para acordar. O trânsito, em crescente, tornava aquela única
via do norte ao sul, agitada. Transeuntes, perdidos no alca-
trão, deslocavam-se com as suas mercadorias à cabeça. As
bicicletas gemiam com as cargas de carvão ou de comestíveis.
Os carros apareciam de tempo a tempo, cheios de pessoas.
Folheava memórias antigas e, nesta procura ávida e descon-
certante, com os companheiros da jornada Carlos Almeida,
da Helpo, Pedro Martins e Gabriel, da RTP, eis que diante de
mim, imponente, erguia-se a Igreja de N. Senhora das Gra-
ças, em Murrupula. Entrei. Espantei-me, mais uma vez, com
o interior a lembrar uma catedral perdida no mato. O Cristo
continuava crucificado na acácia e o povo parecia que tinha
parado no tempo.
Naquela manhã fina e linear, na Vila de Murrupula, enxuga-
va as lágrimas do encontro emotivo com o antigo animador,
Fernando Brito, que a trombose obrigou a parar. Despedimo-
-nos, sabendo, sem o dizer, que a próxima visita, seria na
eternidade. Partimos com a pressa de chegar. Mas, naqueles
trilhos arenosos ecoavam memórias de quem a custo quis
apenas servir os mais pobres e inverter o ciclo da pobreza.