ESTÓRIAS
Regina Belo
Há 10 anos, estava a tomar o meu café
e a ler o jornal e na revista leio uma re-
portagem sobre uma ONGD, a Helpo, e
os seus programas de apadrinhamento.
Achei os projetos interessantes e vi ali
uma forma de poder contribuir à distân-
cia. E, se a reportagem estava publicada
num jornal nacional, acreditei que seria
uma ONGD credível. Cheguei a casa, fui
à página da internet da Helpo, e tornei-
-me madrinha. Optei por Moçambique,
porque de certa forma era como se já
conhecesse este país pelas histórias da
guerra colonial que o meu pai me con-
tava. Recebi, pouco tempo depois, uma
carta sobre um menino de 3 anos, o
Augusto, com a sua fotografia, informa-
ção sobre ele e a família, a comunidade
em que estava inserido e a realidade em
que vivia. A partir desse dia, o Augusto
passou a fazer parte da minha vida.
Há muito que tinha vontade de ir a Mo-
çambique, conhecer o Augusto e a Hel-
po. Projetei, mas nunca se concretizou,
por um motivo ou por outro. E eis que
o Luís me liga: a DAR está a fazer uma
parceria com a Helpo e está a ser pro-
gramada uma viagem a Moçambique.
Nem pensei duas vezes!
Íamos apadrinhar mais crianças através
da DAR e concretizar outros projetos
nas comunidades. Um “casamento” feliz
entre a DAR e a Helpo!
Participámos no projeto conjunto da
DAR para a recuperação da Ludoteca
de Nampula, onde deixámos o nosso
suor e risos (nada de lágrimas). E vi e
confirmei o que a Helpo já me tinha
vindo a mostrar ao longo destes anos:
que é uma ONGD de confiança, tanto
para nós, padrinhos, como para as co-
munidades locais; que tem profissionais
empenhados e que o nosso contributo
como padrinhos se concretiza em ações
no terreno, que têm mesmo um grande
impacto na vida daquelas crianças, famí-
lias e comunidades. O dinheiro gasto
numa noite de jantar com amigos pode
“impagável
foi assistir à
reação dele e
do pai ao ve-
rem todas as
fotografias des-
tes 10 anos”
ser a diferença entre conseguir manter
um adolescente no ensino secundário
ou não. Parece tão pouco, mas não é!
As salas de aulas, que a Helpo constrói
com o IRS dos contribuintes, conse-
guem-se com apenas uma cruzinha na
declaração e fazem toda a diferença! E
ver aquelas crianças a sorrir, a brincar, a
alegria contagiosa delas!
Foram muitos os momentos de satis-
fação e profunda emoção. Poder dar
um lanche na escola àquelas crianças,
onde nem sempre há “mata-bicho”,
proporcionar um forno comunitário
para cozer o pão e ver a satisfação com
que comiam, foi um dos momentos que
mais me tocou. Comem metade do pão
e bebem apenas metade do chá para
levar o restante para casa. O sorriso de
um menino (que tinha feridas no pé)
quando a Inês lhe levou e calçou umas
sandálias. E depois, as lágrimas escondi-
das. A alegria e a festa com que fomos
recebidos nas aldeias! E o momento
mais emocionante da viagem: estar
frente a frente com o Augusto. Até os
outros amigos do grupo estavam ansio-
sos por conhecê-lo, de tanto ouvir falar
e ver as fotografias. Foi emocionante!
10 anos depois de entrar na minha vida,
finalmente, ali estava ele! Apetecia-me
correr para o abraçar e beijar, mas a
nossa realidade é diferente. Augusto es-
tava algo assustado e com poucas pala-
vras. Depois, foi ficando mais à vontade.
Mas o momento impagável foi assistir
à reação dele e do pai ao verem todas
as fotografias destes 10 anos, desde os
3 de idade aos dias de hoje. E o brilho
no olhar ao receber a bola de futebol e
a tentar conter as lágrimas. Finalmen-
te, lá lhe dei um rápido abraço antes de
ele ir embora. Tudo isto se tornou ainda
mais especial por ter ali este grupo de
amigos, a partilhar este momento e esta
alegria comigo.
E muito mais haveria para dizer sobre
toda esta experiência. Agora sei por que
África se entranha: aquela terra laranja,
aquele pôr do sol que queima o céu,
como não há igual; e as pessoas, a ale-
gria e o sorriso das crianças...