86 :: H ISTÓRIA :: M ÓDULO 1
Introdução
No capítulo anterior, discutimos uma série de processos de mudança social
que levaram ao surgimento da sociedade capitalista e liberal, entre os quais, a
Revolução Francesa e a Revolução Industrial surgiram como fundamentais para
enfraquecer a posição dominante da nobreza e consolidar a ascensão da burguesia.
Vimos ainda a constituição da classe operária, formada por ex-camponeses e ex-
artesãos, com forte participação das mulheres.
Como vimos no capítulo 7, a Revolução Industrial iniciada na Inglaterra, logo
se expandiu por outros países da Europa e, mais tarde, pelos Estados Unidos. Em
meados do século XIX, países e continentes estavam cada vez mais interligados
através das ferrovias e barcos a vapor. Mercadorias e pessoas passaram a circular
com muito mais rapidez pelos lugares. A urbanização se intensificou, criando
grandes cidades nas quais se encontravam os homens e mulheres vindos do campo
à procura de trabalho.
A ciência não ficava atrás! Cada vez mais ligada à indústria, pesquisava
métodos, máquinas, produtos. A lista de invenções do século XIX é enorme e
assombrosa. Os europeus sentiam-se poderosos, inteligentes e olhavam o mundo
de uma maneira superior – pelo menos essa era a atitude de quem se beneficiava
de todo esse “progresso” e enriquecimento.
Para aqueles que viviam a implantação da sociedade capitalista pelo lado da
exploração e da pobreza, como os operários, o “progresso” ficava bem distante da
realidade. A vida nas fábricas e nos bairros pobres das cidades estava longe de ser
o paraíso que os propagandistas da sociedade industrial divulgavam. Muito pelo
contrário, a miséria extrema, os baixos salários, as doenças e o desemprego que
caracterizavam o cotidiano dos operários industriais causaram grande inquietação
na sociedade. Foi nesse contexto que surgiram movimentos e ideologias operárias,
contestando a dominação da burguesia e propondo novos caminhos para a
sociedade.
Essas ideologias produziam respostas para a chamada questão social,
que podemos definir como a crescente percepção de que a próspera sociedade
industrial carregava em seu interior uma enorme desigualdade e exploração dos
trabalhadores, o que gerava grandes conflitos entre os grupos sociais. Por esse
tema iniciamos as discussões deste capítulo.
Movimentos sociais e as
novas ideologias do mundo
contemporâneo
O surgimento do movimento operário
Você se lembra do personagem citado no capítulo 7, que trabalhava na
cidade inglesa de Manchester e que, através de seu testemunho, nos ajudou a
compreender o processo de transformação que chamamos de Revolução Industrial?
Se puder, volte àquele relato na página 71 deste módulo e observe a maneira pela
qual nosso oficial fiandeiro se referiu às máquinas a vapor presentes nas fábricas:
elas eram “terríveis”, um “demônio”!
Não é difícil saber a razão de um julgamento tão negativo, não é? Para
este homem, as novas máquinas significavam mudança nas formas tradicionais d e
trabalho e, também, desemprego. As pequenas manufaturas não podiam concorrer
com as fábricas; por isso, os artesãos ficavam sem trabalho ou se empregavam
como operários. Essa passagem não foi fácil para muitos trabalhadores, obrigando-
os a abrir mão de seus antigos hábitos, formas de produzir e trabalhar, além de
diminuir seus rendimentos. Por isso, nos primeiros anos após a implantação das
fábricas, houve muita resistência por parte dos trabalhadores.
Uma das formas de resistência ficou conhecida como ludismo e teve como
principal método de ação a destruição de máquinas. Os luditas agiram nas
primeiras décadas do século XIX, em diversas regiões da Inglaterra. Grupos de
artesãos e operários se organizavam para invadir fábricas, quebrando as máquinas.
Muitas vezes, os luditas ameaçavam os próprios donos das fábricas. Veja o que diz
o documento abaixo, datado de 1812:
Na cidade de Huddersfield, um certo Sr. Smith, que se tornara impopular
pelo uso liberal da nova máquina, recebeu uma carta ameaçadora de “Ned
Ludd, o escrevente”, que se intitulava “o general do Exército dos reparadores”,
nos seguintes termos:
“Senhor,
Recebemos informação de que é dono dessas detestáveis Tosquiadoras
Mecânicas ... Fica avisado de que se elas não forem retiradas até o fim da
próxima semana, eu mandarei imediatamente um de meus Representantes
destruí-las ... e se o Senhor tiver a imprudência de disparar contra qualquer
de meus Homens , eles têm ordem de Matá-lo e queimar toda a sua Casa.”
(RUDÉ, George. A multidão na história. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1991)
Com isso, o que pretendiam os quebradores de máquinas? Observando
com atenção o documento, vemos que os autores afirmavam fazer parte de um
“exército de reparadores”. Isso já pode nos indicar um de seus objetivos: consertar
algo, colocar algo no lugar; talvez recuperar o mundo dos artesãos que desaparecia
diante das fábricas. E as máquinas eram, para esses contestadores, as culpadas por
essa mudança, pela perda do emprego, pelo empobrecimento dos artesãos, pelas
transformações no ritmo da vida.
Muitas vezes, porém, essas ameaças foram utilizadas pelos luditas para negociar
com os patrões melhores salários e condições de trabalho. Assim, ao mesmo tempo
em que buscavam defender seu modo de vida tradicional, os trabalhadores também
começavam a se reunir e se organizar para pressionar os donos das fábricas em
busca de conquistas para a classe operária. Com o passar dos anos e, principalmente,
com a repressão das forças policiais inglesas, as ações luditas foram controladas.
Isso não significou, entretanto, o enfraquecimento das mobilizações dos
trabalhadores. Ao contrário, foram sendo criadas diversas associações de auxílio
que buscavam ajudar os operários em situações específicas – como acidentes de
trabalho ou aposentadoria, por exemplo. As primeiras leis que regulamentavam
o trabalho nas fábricas também foram criadas sob a pressão dessas associações.
Nas décadas de 1830 e 1840, na própria Inglaterra, ganhou força um
movimento nacional chamado cartismo, que pressionou o Parlamento inglês a
mudar as regras de participação política, permitindo que trabalhadores pobres
tivessem acesso ao voto e pudessem ser eleitos. Milhões de operários se
mobilizaram em toda a Inglaterra para apoiar a “Carta do Povo”, subscrevendo
abaixo-assinados e participando de manifestações públicas.
Ainda que muitos de seus objetivos não tivessem sido alcançados, o
cartismo permitiu que os trabalhadores adquirissem experiência na organização