72:: HISTÓRIA:: MÓDULO 1
Introdução
Depois de estudarmos as relações entre o continente europeu e as Américas, é hora de voltarmos os olhos para os diferentes processos que ocorreram na Europa durante os séculos XVIII e XIX. Importantes mudanças levaram à construção de uma nova sociedade e seus desdobramentos foram sentidos de maneira muito forte em todos os continentes.
Para entender as transformações, e por que elas aconteceram, nosso primeiro passo é identificar alguns aspectos que compunham o cenário europeu no início do século XVIII.
Resgatando o que discutimos no capítulo 5, devemos lembrar que os impérios coloniais de países como França e Inglaterra se ampliaram bastante durante o século XVII, devido ao estabelecimento de colônias no Caribe, América do Norte e Ásia. O tráfico de africanos escravizados para a América também se intensificou, contando com a participação de comerciantes ingleses, franceses, portugueses e holandeses, entre outros. A produção de artigos para exportação nas colônias americanas apresentou um crescimento constante, bem como a venda de mercadorias europeias para essas regiões.
O aumento dos circuitos comerciais entre os continentes enriqueceu muitíssimo os comerciantes europeus que os organizavam, levando ao fortalecimento da burguesia como um grupo social cada vez mais importante dentro de países como França, Inglaterra e Holanda. Em Portugal e Espanha também houve grupos que enriqueceram, no entanto esses países não apresentaram o mesmo desenvolvimento e passaram a depender de outros, principalmente a Inglaterra, para ter acesso a produtos manufaturados.
A posição ocupada por cada reino e o poder dos monarcas absolutos dependiam muito das riquezas produzidas por suas colônias e da força dos produtos nacionais no comércio mundial. Por isso, era muito frequente que os reinos europeus travassem guerras entre si com o objetivo de dominar determinada área comercial ou causar prejuízos aos negócios de seus concorrentes. Devemos lembrar que, nesses circuitos comerciais em expansão, o tráfico de africanos escravizados ocupava um lugar cada vez mais importante como atividade lucrativa e meio de ligação entre as economias de diferentes continentes e países.
Internamente, as sociedades europeias do século XVIII registravam mudanças como o crescimento das cidades, resultante do avanço do comércio. Nesses centros urbanos, desenvolviam-se muitas atividades manufatureiras e os principais negócios bancários. Eram, ainda, o destino de um grande número de camponeses que, por alguma razão, viam-se impossibilitados de sobreviver através das atividades agrícolas. Nas cidades também se desenvolviam as escolas e as universidades; a circulação de jornais e de ideias se intensificava. Alguns novos negócios passaram a se mostrar bastante lucrativos, como as editoras de livros, que tinham à sua disposição um público leitor, ainda que reduzido, ávido por informações de todo o mundo.
Todas essas inovações construíram um cenário bastante especial para a Europa do início do século XVIII. Ao lado dos comerciantes enriquecidos com a venda de escravos africanos, do açúcar americano, dos produtos de luxo franceses e dos tecidos ingleses, vamos encontrar membros da nobreza cujo poder e sobrevivência eram garantidos pela exploração dos camponeses, de forma muito semelhante ao que ocorria na Idade Média. Enquanto nas cidades os estudos e as ciências se desenvolviam, a maioria da população que vivia no campo permanecia ligada a antigas tradições e sob influência constante das crenças e autoridades religiosas.
Foi nesse mundo que foram gerados os processos históricos que questionaram profundamente a sociedade europeia e estabeleceram novas formas de viver, trabalhar e pensar. A sociedade capitalista, democrática e liberal, na qual vivemos atualmente, teve ali, no século XVIII, o seu ponto de partida. Preste muita atenção nestas palavras: capitalismo, democracia, liberalismo. Provavelmente você já as escutou muitas vezes. Procure entender muito bem o significado de cada uma, pois elas serão muito importantes para a História que estudaremos neste capítulo... e nos próximos. Vamos lá?
Antecedentes: as Revoluções Inglesas do século XVII
As grandes mudanças que vamos estudar neste capítulo tiveram por base processos históricos ocorridos antes, em especial na Inglaterra. Lá surgiram as bases do Iluminismo e do questionamento ao poder absoluto dos reis e também movimentos sociais de caráter igualitário reunindo camponeses que lutavam pelo direito à terra.
Durante grande parte do século XVII, a Inglaterra enfrentou um período de muitos conflitos sociais e políticos. As principais razões desses conflitos foram os choques entre os reis da Dinastia Stuart e o Parlamento acerca dos limites do poder real e o enfrentamento religioso – entre católicos, anglicanos e puritanos.
Desde 1603, a monarquia liderada pelos Stuart buscava fortalecer o poder real através da imposição de novas leis e regras ao Parlamento, que incluíram até o fechamento deste por um longo período. Outro meio para o fortalecimento do poder monárquico foi a tentativa de impor a religião anglicana a todo o reino, o que originou a perseguição a católicos e puritanos. Foi devido a esse contexto que muitos perseguidos acabaram optando por se transferir para as colônias inglesas na América. Por último, diversas intervenções do rei na economia causaram insatisfação entre alguns grupos burgueses e nobres.
Os conflitos entre o rei e o Parlamento se tornaram mais graves a partir de 1640, desembocando na guerra civil que se estendeu entre 1642 e 1649 e terminou com a vitória do Parlamento. Pouco depois, vieram a proclamação da república sob a liderança de Oliver Cromwell, líder dos exércitos rebeldes, e o julgamento, condenação e execução do rei.
Durante a guerra civil e parte da república de Cromwell, a participação de militares advindos das camadas mais baixas da população cresceu muito, o que assustou os líderes do Parlamento – provenientes, principalmente, da burguesia comercial urbana e da pequena nobreza. Os soldados e camponeses que aderiram à luta organizaramse em diferentes grupos e chegaram a defender mudanças na estrutura social, como a limitação do tamanho das propriedades de terra ou a sua redistribuição.
Este avanço das reivindicações populares provocou o afastamento da burguesia e pequena nobreza da república, levando-os a se unirem em torno da restauração monárquica, que aconteceu em 1660. Carlos II, filho do rei executado, assumiu o trono. Entretanto, os choques com o Parlamento permaneceram, pois os reis Stuart não aceitavam ter seu poder limitado.