Mod.1 História Cederj 1 | Página 62

62 :: H ISTÓRIA :: M ÓDULO 1 Produção e trabalho na colônia nos séculos XVI a XVIII Introdução Quando nos referimos à montagem e ao funcionamento do sistema colonial, estamos fazendo referência a uma relação entre metrópole e colônia onde esta última teria como objetivo principal enriquecer e fortalecer a primeira, como vimos no capítulo 3. A historiografia durante muito tempo defendeu que a produção colonial deveria ser feita em larga escala, em grandes extensões de terras e utilizando mão de obra abundante e compulsória. Essa produção seria comercializada com exclusividade pela metrópole. Nas transações comerciais, a colônia venderia seus produtos somente para a metrópole e compraria os artigos manufaturados e os escravos africanos somente de comerciantes que recebiam o monopólio comercial da metrrópole, seguindo a lógica do pacto colonial. No entanto, atualmente os novos estudos estabeleceram que a relação entre metrópole e colônia não se constituía numa relação passiva da colônia. Sendo assim, devemos relativizar primeiro a ideia de que a colônia era dividida em latifúndios monocultores. É preciso registrar a presença de pequenas e médias propriedades em diferentes áreas da colônia que não produziam um só produto destinado à exportação. Também é preciso relativizar a ideia de que a metrópole exercia um monopólio comercial rígido e que todos os produtos importados e exportados pela colônia passavam necessariamente por Lisboa. A agromanufatura açucareira A partir de 1530, a Coroa portuguesa dedicou- se a promover a efetiva ocupação da colônia para garantir a sua posse. A queda dos lucros com o comércio das “I n d i a s” fez com que a Coroa investisse em uma atividade produtiva que fosse economicamente interessante para o governo e que atraísse investidores portugueses. O produto escolhido foi o açúcar, que atingia altos preços no mercado europeu e que já era produzido em outras áreas do Império português. A agromanufatura açucareira, desenvolvida sobretudo nas capitanias do Nordeste, se organizava em duas principais etapas da atividade: a agrícola (cultivo da cana-de-açúcar) e a manufatureira (a transformação da cana em açúcar). O sistema adotado foi a plantation, ou seja, em grandes propriedades rurais monocultoras, baseadas na mão de obra escrava e cuja produção era feita em larga escala e destinada ao mercado externo. É importante destacar que, embora a produção fosse destinada ao mercado europeu, existiam atividades necessárias ao funcionamento dessas propriedades rurais e que eram ali praticadas, como o plantio voltado para o consumo local. Dos engenhos de cana saiu, também, a aguardente, bebida consumida pela população colonial e importante artigo na troca por escravos na África. Nesse sentido, a produção das fazendas açucareiras também se destinava ao mercado interno, chegando a concorrer com o vinho importando de Portugal, e ao africano. Isso nos mostra, portanto, que o pacto colonial não organizava totalmente as relações entre colônia e metrópole. Nos séculos XVI e XVII, formou-se no litoral uma sociedade centrada na figura do grande proprietário de terras e de escravos – o senhor de engenho – , que dominava a vida política juntamente com os funcionários metropolitanos e os grandes comerciantes. Além deles e de suas famílias, a sociedade era composta por membros do clero, comerciantes, artesãos, pequenos e médios lavradores, trabalhadores livres e escravos. Atividades voltadas para o mercado interno Agricultura de alimentos Internamente, à medida que a colônia se desenvolvia, iam se organizando pequenas e médias unidades produtoras de alimentos, para abastecimento da população que também crescia tanto no campo quanto nas cidades. A capitania de São Vicente (próxima ao que atualmente é o estado de São Paulo) destacou-se nessa produção, chegando a apresentar grandes propriedades voltadas para a produção de alimentos para a população colonial. E usando a mão de obra escrava do africano e do indígena. A pecuária A pecuária teve sua origem no início da colonização, quando os portugueses trouxeram algumas cabeças de gado com o objetivo de utilizá- lo como tração animal, nos engenhos de açúcar, no transporte de cargas e de pessoas. Com o aumento do rebanho, o gado começou a ser utilizado também como fonte de alimentação. De início era criado no próprio engenho, mas com o crescimento da atividade canavieira e dos rebanhos, a pecuária passou a ser uma atividade independente do engenho. No início do século XVII, a administração portuguesa reservou a costa litorânea da colônia à atividade agrícola com a proibição da criação de gado numa faixa de 80 km da costa para o interior. Essa medida levou os criadores a penetrar para o interior em busca de pasto, contribuindo para a interiorização da colonização para além dos limites do Tratado de Tordesilhas. Uma peculiaridade desta atividade econômica eram as relações de trabalho estabelecidas: predominava o trabalho de negros libertos e homens livres e pobres, tendo os vaqueiros uma participação no produto. Recebiam uma parcela das crias que nasciam sob seus cuidados. Assim, com o tempo, o vaqueiro poderia se estabelecer por conta própria... Numa sociedade escravista, era bem atrativo! Diversidade da produção colonial e o comércio Além da produção açucareira, desenvolveram-se na colônia outras atividades econômicas voltadas para a exportação, envolvendo o cultivo de outros produtos como o tabaco, sobretudo na região da Bahia, cultivado em pequenas e médias propriedades.