CAPÍTULO 9:: 103 intelectuais( incluindo padres), militares, funcionários do governo e proprietários de minas endividados conspirasse para executar uma rebelião.
Fortemente influenciado pelo exemplo norte-americano, o plano envolvia tornar a região independente e estabelecer uma república, mas os conspiradores não entraram em acordo quanto à questão do fim da escravidão. A conspiração foi descoberta através da delação de um de seus integrantes, que trocou a informação pelo perdão de suas dívidas. Os acusados foram julgados e os principais envolvidos condenados à morte, em 1792. Porém suas penas foram reduzidas, sendo algumas delas transformadas em degredo( expulsão do país) para a África. Somente um entre os acusados recebeu a pena de morte: o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi enforcado em praça pública no Rio de Janeiro.
Bahia, 1798
O movimento que ocorreu na Bahia, quase dez anos depois, teve outras características, mas também se propunha a fazer a independência com relação a Portugal. No entanto, era um movimento de bases mais populares e trazia planos de outra natureza: proclamar a república e acabar com a desigualdade entre brancos e negros livres. Dessa conspiração participavam indivíduos de camadas populares: soldados, artesãos, alfaiates e até mesmo escravos. Ficou conhecida como a“ rebelião dos alfaiates”, pois havia entre seus líderes dois desses profissionais, sendo um deles um ex-escravo.
A rebelião dos alfaiates pregava suas ideias através de panfletos expostos em diferentes partes da cidade. Num determinado momento, os participantes resolveram reunir-se para planejar uma ação, numa área distante da cidade, mas foram denunciados e presos. As punições foram rigorosas, principalmente pelo fato ter sido uma conspiração com um conteúdo social e contrário ao preconceito racial. Quatro dos integrantes presos foram condenados à morte, sendo todos negros e mestiços. Os participantes brancos e de situação econômica melhor tiveram punições mais brandas.
Durante muito tempo, nos livros de História, as conjurações foram chamadas de inconfidências. E ainda hoje são. Entretanto,“ inconfidência” significa“ trair a confiança” ou“ falta de fidelidade para com alguém”, termo mais adequado se acreditarmos que estes conspiradores devessem lealdade ao governo português. Preferimos, assim, usar o termo conjuração, que quer dizer“ conspiração contra o Estado, contra o governante ou contra alguém”.
:: O Brasil deixa de ser uma colônia:: A vinda da Corte Portuguesa Como vimos neste mesmo capítulo, ao estudarmos a independência das colônias espanholas na América, Napoleão comandou uma expansão da França sobre a Europa e forçou o estabelecimento de um bloqueio dos países do continente ao comércio com a Inglaterra – o Bloqueio Continental. E, como Portugal, tradicional aliado e devedor da Inglaterra custasse a tomar posição favorável à França, foi ameaçado de invasão.
As ameaças napoleônicas não eram um blefe e a fama dos exércitos franceses era grande naquela época... A Espanha já estava ocupada, tendo um irmão de Napoleão à frente do trono. Tudo isso criava um grande risco para Portugal. Assim, com o apoio e pressão inglesa, os governantes portugueses resolveram fugir para o Brasil, levando consigo parte da nobreza e do tesouro luso – era a Corte
Portuguesa, ou seja, a família real e mais milhares de funcionários públicos e nobres, com suas joias, pratarias e porcelanas.
Em 7 de março de 1808, chegaram ao Rio de Janeiro. O objetivo, segundo uma declaração da época, feita por um alto funcionário português era:“ Criar um poderoso império no Brasil, de onde se volte a reconquistar o que se possa ter perdido na Europa.”
O período joanino( 1808 – 1821)
A primeira medida tomada pelo governo de Dom João no Brasil foi, ainda a caminho do Rio de Janeiro, abrir os portos brasileiros“ às nações amigas”. Essas nações eram a própria Inglaterra e outros países que a apoiavam. Este foi, oficialmente, o fim do monopólio comercial. E era a única maneira de Portugal manter contato com o restante de seu império, na África e na Ásia.
Nos anos seguintes, o governo português no Brasil firmou com a Inglaterra, sua principal aliada e protetora na viagem de fuga para o Brasil, uma série de tratados em 1810, nos quais concordou em dar tratamento privilegiado aos navios ingleses nos portos brasileiros e aos súditos ingleses no Brasil, e, entre outros acordos, comprometeu-se a ir acabando pouco ao pouco com o tráfico de escravos africanos. Essa parte do acordo não foi cumprida.
Desde a chegada da corte ao Brasil, fora revogado o alvará que proibia as manufaturas. Começaram a se desenvolver atividades econômicas em diferentes regiões e as ligações entre o Rio de Janeiro e outras partes do país se fortaleceram.
O Brasil tornou-se então a sede do governo português. Dom João, como príncipe regente, teve que criar órgãos administrativos para fazer funcionar seu governo. Nesses novos órgãos, contou com seus funcionários portugueses, mas, também, abriu espaço para representantes das elites coloniais do Brasil, sobretudo aqueles que estudaram na Europa. Dessa maneira, iniciou-se um processo de maior ligação entre elites portuguesas e coloniais, que se desdobrou em alianças matrimoniais e de negócios.
Muitas mudanças ocorreram a partir daí na cidade que se tornou a capital do reino: o Rio de Janeiro. Casas foram cedidas para a família real e a nobreza que chegara. A convivência com novos hábitos e costumes trazidos pelos membros da corte portuguesa transformaram a vida de seus habitantes. A cidade foi sendo reformada, novas moradias foram construídas, bem como prédios públicos.
E, para dar ao Brasil uma vida cultural digna da sede do Império português, fundou também a Biblioteca Nacional, a Imprensa Régia, a Escola de Belas Artes e o Jardim Botânico, entre outras instituições. No seu governo, estimulou a vinda de estudiosos da natureza, de artistas e de viajantes europeus, que desenhariam, pintariam e escreveriam muito sobre o Brasil da primeira metade do século XIX.
Ao mesmo tempo, o início da atividade cafeeira demandava novos braços. O tráfico de escravos cresceu como nunca, alimentado demandas dos comerciantes e proprietários brasileiros. As cidades cresciam e, com elas, a escravidão urbana. O Rio de Janeiro era descrito pelos viajantes da época como uma cidade altamente africanizada, onde era possível encontrar, como em nenhum outro lugar do mundo, indivíduos dos mais diferentes povos da África.