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CAPÍTULO 9:: 101
As ideias iluministas chegaram até as Américas e influenciaram os líderes locais, em especial aqueles filhos da classe dominante de origem europeia( poderiam ser mestiços também), que acreditavam estar preparados para governar eles mesmos a sua terra. Nas colônias, as pessoas que tinham mais estudo e acesso maior aos livros e publicações europeias recebiam e divulgavam essas novas formas de pensar a vida política e social. Muitas vezes, na discussão de questões como as restrições comerciais impostas pela metrópole e a pouca participação das elites criolas nos órgãos governamentais, as ideias liberais e iluministas foram fundamentais para que os colonos elaborassem suas reivindicações – o que consideravam ser seus direitos de liberdade e representação – e propusessem mudanças, se sentindo capazes de construir um caminho próprio.
A política inglesa
A Inglaterra vinha passando por um extraordinário desenvolvimento econômico, desde o início do século XVIII, o que significava enriquecimento para aqueles setores vinculados ao comércio e à nascente indústria. Depois da derrota dos holandeses em algumas disputas, a Inglaterra tornara-se a verdadeira rainha dos mares, possuía a frota naval mais poderosa e contatos comerciais em diversos continentes.
No início do século XVIII, uma guerra pela sucessão do rei da Espanha envolveu diversos países europeus. A Inglaterra acabou sendo a grande vitoriosa: o Tratado de Utrecht( 1713), que regulamentou as perdas e ganhos na guerra de sucessão espanhola, deu à Inglaterra algumas vantagens no comércio com as colônias espanholas na América, como os direitos de comerciar escravos e mercadorias manufaturadas.
Após o fim da Guerra dos Sete Anos( 1756-1763) contra a França, a Inglaterra ficou com o domínio sobre Granada, São Vicente e Tobago, ilhas do mar do Caribe. Com essas aquisições, ampliou seu poder sobre a área, principalmente depois que a Espanha concedeu direito de livre comércio entre as suas colônias, em 1765.
A perda das Treze Colônias, que se tornaram os Estados Unidos independentes, fez com que a Inglaterra buscasse uma saída para recuperar as perdas econômicas por meio da intensificação do comércio com outras partes da América – sobretudo as áreas de domínio espanhol e português. A independência dessas colônias significaria o fim do controle das metrópoles a relação direta com os comerciantes ingleses. Por essa razão, a Inglaterra apoiou, muitas vezes com capital, homens e armas, esses os colonos que lutavam pela independência.
A ambição da França
Se a Inglaterra estava em pleno fortalecimento naval e econômico no início do século XIX, a França se encontrava, no início do século XIX, sob o comando de Napoleão Bonaparte, o qual iniciou uma série de guerras expansionistas na Europa, disputando espaço e poder com os ingleses. A Espanha era tradicional aliada da França e, por isso, teve seus domínios coloniais ameaçados pela marinha inglesa.
Em 1806, Napoleão decidiu impor o Bloqueio Continental à Inglaterra. Em meio aos conflitos gerados em seguida, as tropas francesas invadiram a Península Ibérica, obrigando o rei da Espanha a abdicar em nome do irmão de Napoleão e levando a família real portuguesa a migrar para o Brasil. Na Espanha, houve reações e se organizou uma resistência ao domínio napoleônico.
A inabilidade da Espanha
Esse novo cenário desestabilizou fortemente o poder espanhol sobre as colônias e abriu espaço para que as elites criolas na América estabelecessem o controle político em suas regiões, em nome do rei espanhol deposto. Dessa forma, implantaram uma autonomia administrativa e a liberdade de comércio. Sem o apoio da Espanha, os chapetones e os funcionários da Coroa espanhola foram sendo pouco a pouco derrotados.
O processo de independência das colônias espanholas nas Américas foi diferente em cada uma das regiões, mas teve como característica comum a liderança dos criollos. O México foi uma exceção, pois lá o movimento popular foi liderado por dois padres, em dois momentos distintos: em 1810, com Hidalgo, e em 1811 – 1815, com Morelos. Mas, mesmo lá, a elite criolla acabou por apropriar-se do controle sobre o processo de emancipação.
No entanto, mesmo com essas independências em marcha, o governo espanhol resolveu retomar as rédeas de suas colônias, depois da derrota de Napoleão e do fim da ocupação francesa. A monarquia espanhola não percebeu que esses processos históricos haviam alcançado um ponto do qual não havia como retornar à situação de colônia tradicional e insistiu com a não negociação – daí a denominação“ inabilidade” espanhola.
O governo da Espanha passou então a enfrentar guerras em várias frentes, nas suas antigas colônias. E, em 1820, também teve que enfrentar uma oposição interna: um movimento liberal contra o absolutismo monárquico. A crise gerada por ele enfraqueceu ainda mais as possibilidades de contenção das lutas pela emancipação na América.
E, finalmente, as independências( 1810-1825)
Na América do Sul surgiram dois importantes líderes: Simon Bolívar e San Martin. Cada um deles conduziu tropas e realizou guerras, libertando regiões inteiras do domínio espanhol.
No início da luta, muitos criollos queriam apenas manter seu poder e autonomia. Não queriam a separação imediata da Espanha, mas a“ inabilidade” do governo espanhol e a pressão das massas populares acabaram levando-os a reivindicar a emancipação total. Eles agora queriam a todo custo manter sua situação econômica e poder político, sem a participação do povo: índios, negros e mestiços pobres, muitos deles integrantes das tropas que lutaram nas guerras contra a Espanha. Nos momentos finais da luta pela independência, havia diferentes ideias sobre o futuro dos países independentes. Um deles, defendido por Simon Bolívar, projetava uma América espanhola unida por órgãos comuns. Entretando, o que ocorreu nas décadas seguintes foi uma fragmentação dos antigos vice-reinos em vários países. Isso se deveu, sobretudo, à força das lideranças criollas, que buscavam garantir o controle político sobre suas regiões e populações e viam com receio a existência de um governo mais abrangente. Por outro lado, não havia laços econômicos ou de identidade que unissem regiões mais distantes.