Mindset Magazine | Ano 1 | Número 1 | Janeiro 2019 Mindset magazine Janeiro 2019A | Page 26

MUNDO MEU, MUNDO MEU, EXISTE ALGUÉM MAIS PERFEITO DO QUE EU? Num destes dias, no feed do Instagram vi uma imagem que dizia “ia publicar uma fotografia minha, mas já sei que vão começar com piropos, a assediar- me e essas coisas depravadas… É melhor não!”. Fiquei a remoer no assunto. Lugares-comuns à parte, é cada vez mais evidente que as imagens passaram a valer muito mais do que as palavras, numa sociedade de consumo imediato e na qual o primeiro impacto dita o sucesso ou insucesso das nossas pretensões, seja a nível profissional ou pessoal. Mesmo que não seja de uma forma consciente, vivemos cada vez mais em função da aparência. O nosso cartão de visita é o nosso aspeto e a forma como nos vestimos. Virtudes e capacidades ficam soterradas debaixo dos enfeites a que recorremos, como se brincos, pulseiras, anéis, malas e colares fossem o espelho da nossa verdadeira essência. Dependentes de gostos e corações virtuais, compartimentamos os acontecimentos do quotidiano em fragmentos fotográficos, vivendo da imagem e através dela. Parece ser transversal esta necessidade de tornar público tudo o que pertence à esfera profissional e privada, o que dá a sensação de que só existimos se mostrarmos aos outros o que andamos a fazer, a comer e com quem estamos, selecionando sempre o registo que mais nos favorece fisicamente. Selfies, palavras-chave e identificações são criteriosamente selecionadas para contar a melhor história, que é cortada, editada e melhorada com recursos a aplicações que eliminam rugas e borbulhas, suavizam a nossa tez, mas também apagam pessoas indesejadas e transformam o banal e corriqueiro em vivências espetaculares, que não correspondem ao que sentimos ou experienciamos em primeira mão. A imagem corporal é central na construção da identidade pessoal e social. O corpo e a aparência condicionam a forma como estamos no mundo e como interagimos com os outros. JOANA MARQUES Licenciada em Jornalismo e História e autora de artigos sobre Yoga e os distúrbios alimentares. Aluna do Curso de Profissionalização de Yoga – II Edição dirigido pelo Prof. Marco Peralta. Autora da página de Facebook “Tripolaridades – Ansiedade, Anorexia e Bulimia”. Este projecto pretende ser um referencial que permita às pessoas que como Joana enfrentam a anorexia-bulímica e transtorno de Ansieda crónica, perceberem que não estão sozinhas. A predominância de ideais de beleza impossíveis de atingir podem ter repercussões psicológicas e físicas, com o potencial de levar ao desenvolvimento de patologias sérias, como os distúrbios alimentares e de imagem. O corpo e a ideia de beleza continuam a ser temas que nos devem preocupar, já que vivemos no epicentro de uma sociedade que promove o corpo humano como um objeto de consumo e como consumidor de produtos e serviços que sustentam grande parte do tecido económico do mundo ocidental: os têxteis, os bens alimentares, os serviços destinados a embelezar e manter o corpo em forma, entre outros. Será inevitável que num cenário destes a ética seja substituída pela estética? Qual é a linha que separa a busca pela imagem perfeita e a preservação da saúde física e mental? Hoje todos somos figuras mais ou menos públicas, e quanto mais preocupados estivermos com a nossa imagem, maior é a probabilidade de desenvolvermos relações complicadas com a comida, com o corpo e com os outros. MINDSET MAGAZINE | 24