Madame Eva Mme Eva quarto numero | страница 26

de ano! – Redarguia Vladimir Amado.
– O mal relatado, aparentemente, persiste, Vladimir. Ora, é o que está aqui no Testamento, não posso fazer nada, infelizmente. É documento escrito! Interesse público em primeiro lugar. – Respondia Beltrão Boa-Lábia.
– Fostes tu que escreveu ele, cabra safado! Você não quer é pagar o que me deve! Vem me enrolando a meses com sua dívida! – bradava mais uma vez, Vladimir Amado.
– Isso é uma afronta a minha moralidade Sr. Vladimir! Eu gostaria muito de lhe pagar o que devo! Inclusive eu já estava com a quantia reservada para lhe transferir na semana que vem. Mas agora, não sei como vou fazer né …
– Sem Vergonha!!!
O grito do vendedor rompeu uma confusão na praça que, para infelicidade do jovem Tunico, que só queria dançar forró, durou horas. Terminou com o lenço perfumado de Lucinda, a moça mais bela da cidade, lançado ao chão e com a cabeça indignada de Vladimir Amado decapitada pela Guilhotina. Este prometeu, antes de morrer, que iria receber a quantia de dinheiro devida por Beltrão Boa-Lábia nem que se tivesse que voltar do inferno para buscá-la.
Mas apesar da confusão, comum na cerimônia, todos os anos, a leitura do testamento seguiu com normalidade, mesmo com os protestos constantes do jovem Cleison. Este acabou sendo guilhotinado, graças a um adendo perdido, adicionado de última hora ao documento. Segundo Beltrão Boa-Lábia, o anexo adicionado“ é parte do documento original que havia passado despercebido por seus‘ escafandristas”.
Como o Mestre de Cerimônia havia adiantado, naquele ano, o relato de transmissão da herança do filho do capiroto estava particularmente extenso. Judas Iscariotes, que já tinha dado todas as suas vestimentas, teve que deixar para um de seus herdeiros até um cachecol que supostamente teria usado no deserto da galiléia.
– Pintangueirenses do norte! – retomava Beltrão Boa-Lábia – Concluímos a contento a leitura deste inestimável documento para nossa cidade. Hoje, ao contrário do que certa pessoa alegou, Pitangueira do Norte provou ser, mais uma vez, a cidade mais democrática do mundo. Pois no nosso município, a grande Guilhotina não faz acepção de pessoas. Aqui, cai a cabeça do pobre, mas também cai a cabeça do rico. Não importa a cor, as crenças, as ideologias, o status social, nem seus motivos. A Justiça é cega e vale para todos! E para não restar dúvidas, seguiremos com o ritual inspirado nos preceitos de nosso grande filósofo, Deodoro Rodolfo: sortearemos o nome do cidadão que terá a honra de ser guilhotinado.
Lucinda, a moça mais bela da cidade, e João, o estudante prodígio do ano, rodaram a grande e redonda urna que continha o nome de todos os cidadãos pitangueirenses. Ao retirar do compartimento o cartão sorteado, o prefeito Jeribaldo Mendonça colocou seus óculos antes de anunciar em alto e bom tom o futuro guilhotinado:
–“ Beltrão Boa-Lábia”!
Naquela noite, o lenço perfumado tocou pela última vez o chão da praça. E, em instantes, todos saíram às pressas de seus lugares. Era Sábado de Aleluia, dia de dançar forró em Pitangueira do Norte.

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