É um facto que viver exclusivamente da música em Portugal é, e sempre foi, muito complicado. Há quem acumule empregos. Sambado, por exemplo, trabalha em produção televisiva. “Eu curtia não ter que trabalhar e poder fazer só isto”, diz. Luís Severo confirma que só com o último álbum conseguiu atingir um ponto de equilíbrio. “Com o Cara d’Anjo dava para viver, mas sempre a contar muito bem os trocos. Agora com o novo álbum já estou mais à vontade. Mas eu também sou ultra-poupado...”.
Também Gonçalo Formiga, dos Cave Story, com quem nos reunimos uns dias
depois desta entrevista, lamenta que a música ainda não seja o seu único sustento. “Eu vou fazendo trabalhos. Nada fixo. E isso é o que falta muitas vezes, a profissionalização. Era bom que desse para fazer mais dinheiro, para que desse para viver disto”.
Filipe Sambado sublinha esta ideia. “O problema principal é, sem dúvida, financeiro. Ainda não temos dimensão para ter sustentabilidade a nível financeiro”.
“Falta dinheiro aos músicos, e também aos promotores que organizam os concertos. E falta ao Mpúblico que não quer pagar x euros para ir a um concerto”, afirma Formiga.
E o streaming? O Spotify por exemplo, paga cerca de 0,0038 euros por reprodução. Zero vírgula zero, zero, trinta e oito euros. Uma banda que tenha dez mil visualizações – o que no contexto português é bastante – arrecada por essa canção – apertem os cintos – cerca de trinta e oito euros. Outros serviços, como o Tidal ou Apple Music, praticam valores semelhantes.
Depois há a labiríntica questão dos registos. Um músico português que pretenda fazer valer todos os seus direitos, tem de estar inscrito num emaranhado de associações. A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), a Gestão dos Direitos dos Artistas (GDA), a Audiogest, entre outras. Cada inscrição envolve burocracias chatas e valores pouco simpáticos. A compensação devida pela transmissão de músicas na rádio, por exemplo, só chega às mãos dos artistas depois de todo este processo.
O consenso dos entrevistados é que a maior fonte de rendimento são os concertos. Para Diogo Teixeira de Abreu, outra boa ideia é a distribuição de apoios como os da GDA. “A ideia dos apoios da GDA é óptima e, quando funciona, é fantástico”, mas acrescenta que “o problema é que funciona à base do amigo do amigo. O critério é um pouco estranho, mas acredito que eles escolham efectivamente projectos novos e interessantes e, nesses casos, os apoios são cinco estrelas”.
Falta De Dinheiro – O Problema Principal
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