Jornal O Mocho -dezembro 2015 Jornal O Mocho -dezembro 2015 | Página 31

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Naqueles primeiros trinta anos

Aprendeu as regras do jogo.

Brincou, estudou, errou, retrocedeu.

Cresceu com a noção

De um futuro calmo e certo.

Aos trinta anos, sentou-se.

Pensou no que tinha atingido,

No que estava ali a fazer.

Meditou, pensou, tomou decisões…

E a partir daí, começou a subir a montanha.

Tinham-lhe dito que a subida seria árdua,

Mas que a retribuição final seria espantosa.

Esforçou-se, redobrou forças, construiu,

Refez, trabalhou, criou uma família,

Comprou casa.

Atingiu uma felicidade

Sustentada no esforço.

Finalmente chegou ao cimo.

Tinham-lhe dito que a planície

Que dali avistaria

Era um paraíso, com rios plácidos

Percorrendo, vagarosamente,

A planície,

Emprenhando os campos

As sementes e os frutos

Que se multiplicavam milagrosamente.

Tinham-lhe falado em leite e mel e paz.

Olhou a planície em frente.

Um tremor percorreu o seu corpo

Espalhando um misto de espanto e de horror.

À sua frente uma planície, sim,

Mas ressequida, deserta,

Queimada por um sol abrasador

Que nada deixava crescer.

As rachas no solo ressequido

Demonstravam uma secura

Já de muitos anos.

Então sentou-se.

Deixou que o ar seco

Enchesse os seus pulmões cansados

E meditou.

Sobre o futuro,

Sobre os desejos.

Sobre a realidade palpável.

Passaram alguns dias.

O tempo de meditação chegou ao fim.

Levantou-se, sacudiu o pó acumulado na roupa,

E começou a descer a encosta.

As nuvens de pó de uma repentina tempestade

Envolveram-no.

Sentiu dificuldade em respirar

Sentiu-se queimado pelo ar fervente

Mas continuou.

Decerto que algum oásis no meio deste inferno

Esperaria por ele.

Aí, se o encontrasse, sentar-se-ia

Beberia água fresca da nascente

E deitar-se-ia à sombra.

Recuperaria força para começar de novo.

JOSÉ ROMÃO

O PERCURSO