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Naqueles primeiros trinta anos
Aprendeu as regras do jogo.
Brincou, estudou, errou, retrocedeu.
Cresceu com a noção
De um futuro calmo e certo.
Aos trinta anos, sentou-se.
Pensou no que tinha atingido,
No que estava ali a fazer.
Meditou, pensou, tomou decisões…
E a partir daí, começou a subir a montanha.
Tinham-lhe dito que a subida seria árdua,
Mas que a retribuição final seria espantosa.
Esforçou-se, redobrou forças, construiu,
Refez, trabalhou, criou uma família,
Comprou casa.
Atingiu uma felicidade
Sustentada no esforço.
Finalmente chegou ao cimo.
Tinham-lhe dito que a planície
Que dali avistaria
Era um paraíso, com rios plácidos
Percorrendo, vagarosamente,
A planície,
Emprenhando os campos
As sementes e os frutos
Que se multiplicavam milagrosamente.
Tinham-lhe falado em leite e mel e paz.
Olhou a planície em frente.
Um tremor percorreu o seu corpo
Espalhando um misto de espanto e de horror.
À sua frente uma planície, sim,
Mas ressequida, deserta,
Queimada por um sol abrasador
Que nada deixava crescer.
As rachas no solo ressequido
Demonstravam uma secura
Já de muitos anos.
Então sentou-se.
Deixou que o ar seco
Enchesse os seus pulmões cansados
E meditou.
Sobre o futuro,
Sobre os desejos.
Sobre a realidade palpável.
Passaram alguns dias.
O tempo de meditação chegou ao fim.
Levantou-se, sacudiu o pó acumulado na roupa,
E começou a descer a encosta.
As nuvens de pó de uma repentina tempestade
Envolveram-no.
Sentiu dificuldade em respirar
Sentiu-se queimado pelo ar fervente
Mas continuou.
Decerto que algum oásis no meio deste inferno
Esperaria por ele.
Aí, se o encontrasse, sentar-se-ia
Beberia água fresca da nascente
E deitar-se-ia à sombra.
Recuperaria força para começar de novo.
JOSÉ ROMÃO
O PERCURSO