realidade, tecida pelos males citados e onde se inclui, não por acaso, a imensa desigualdade
social.
Na minha exposição, está implícita uma posição oposta a esse tipo de pensamento. A
cada passo, na passagem do Brasil Colônia para o Brasil independente, na passagem da
Monarquia para a República etc. procurei mostrar que, em meio a continuidades e
acomodações, o país muda, conforme o caso no plano socioeconômico ou no plano político e,
às vezes, em ambos.
No equilíbrio entre as várias partes do livro, dei maior peso à fase que se inicia em fins do
século XIX e vai até os dias de hoje. Deliberadamente, à medida que me aproximei da época
atual, tratei de abrir maior espaço à narrativa, enfatizando os acontecimentos políticos. Essa
opção não indica que considere menos significativo o período colonial ou a época de
construção do Brasil independente. Pelo contrário, aí devem ser buscadas as "raízes do Brasil",
na feliz expressão de Sérgio Buarque de Holanda. Se dei maior ênfase ao período mais próximo
de nossos dias, foi porque ele se encontra em parte presente na nossa memória e porque
incide diretamente nas opções da atualidade. Não há como negar, por exemplo, que estamos
mais interessados na significação do regime militar do que nas capitanias hereditárias.
Por último, desejo agradecer a todas as pessoas que me ajudaram na elaboração do livro.
Fernando Antônio Novais e Luís Felipe de Alencastro leram, respectivamente, os capítulos
sobre a Colônia e o Império, fazendo várias sugestões, incorporadas em grande medida no
texto final. Pedro Paulo Poppovic leu os originais, fez observações e colaborou bastante para o
livro. Lourdes Sola, Carlos e Sérgio Fausto, Amaury G. Bier, Albertina de Oliveira Costa, entre
outros, fizeram sugestões sobre partes do texto ou esclareceram dúvidas sobre questões
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Considerando-se os fins deste livro, não pude incluir notas contendo observações
marginais e referências às obras utilizadas. Se isso tornou o livro mais leve, criou ao mesmo
tempo um problema para o autor. Muito do texto se deve a trabalhos de outros autores que
incorporei e selecionei para os meus fins. Como não citá-los, sem fazer injustiças e correr o
risco de ser acusado de plágio? Procurei resolver o problema através das referências
bibliográficas finais. As referências não abrangem todas as fontes consultadas e não contêm
necessariamente a bibliografia essencial. Elas abrangem apenas aqueles textos diretamente
utilizados na redação. Obviamente, por utilizá-los, considero-os importantes.
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Tratei de tornar explícita a controvérsia entre historiadores sobre ques¬tões relevantes da
história brasileira, por duas razões. Em primeiro lugar, porque esta é uma boa maneira de se
demonstrar a inexistência de uma verdade histórica imutável, que o historiador vai
descobrindo e sobre a qual põe seu selo. O passado histórico é um dado objetivo e não pura
fantasia, criada por quem escreve. Mas essa objetividade, composta de relações materiais, de
produtos da imaginação social e da cultura, passa pelo trabalho de construção do historiador.
Como disse antes, ele seleciona fatos, processos sociais etc., e os interpreta, de acordo com
suas concepções e as informações obtidas. Por isso, ao mesmo tempo que não é arbitrária, a
História - tanto ou mais do que outras disciplinas - se encontra em c