PÁGINA 16
O IMORTAL
NOVEMBRO/2017
O IMORTAL
Mala Direta Postal
Básica
JORNAL DE DIVULGAÇÃO ESPÍRITA
RUA PARÁ, 292, CAIXA POSTAL 63
CEP 86.180-970
TELEFONE: (043) 3254-3261 - CAMBÉ - PR
9912259694/2010-DR/PR
Lar Infantil
Marilia Barbosa
Entrevista: Dr. Arismar Léon
“A discussão se o Espiritismo é ou não
uma ciência é uma questão superada”
GIOVANA CAMPOS
giovanatc@gmail.com
De Santos, SP
Cada vez mais procura-se
fazer ciência dentro da Doutrina
Espírita: pesquisas sobre a mediu-
nidade, métodos de comunicação
com o além, provas documentais
de fatos transmitidos mediunica-
mente, entre tantas outras possi-
bilidades. Mas como estudar e
analisar c ientificamente o mundo
invisível, assuntos não palpáveis
ou demonstráveis? O médico
Arismar Léon (foto), membro
da Associação Médico-Espírita
do Distrito Federal nos fala na
entrevista seguinte a respeito da
ciência espírita decodificada por
Allan Kardec, seu início e o que
podemos esperar nos dias atuais.
Como foi a ciência espírita
proposta por Allan Kardec?
Esta é uma pergunta im-
portante e, para respondê-la,
devemos previamente entender o
contexto histórico em que surgiu
o Espiritismo em meados do sé-
culo XIX, bem como a formação
e a visão relatada pelo próprio
Allan Kardec para sua época.
O século XIX representou um
importante ponto na mudança
dos paradigmas humanos, ao
delegar à Ciência e seus resul-
tados tecnológicos práticos uma
confiança sem precedentes e
que se igualava ou superava a
própria fé dogmática, reinante
até então. Kardec recebeu seus
estudos em pedagogia de Johann
Heinrich Pestalozzi, que por sua
vez era discípulo de uma das
mentes mais proeminentes do
Iluminismo, Jean-Jacques Rous-
seau. Este direcionamento de
estudos dentro da ciência levou
Kardec a fazer parte de várias
associações científicas da época.
Podemos assim dizer que coube a
Kardec, com sua visão e formação
como pesquisador e cientista, o
trabalho exemplar de empregar a
metodologia de pesquisa vigente
e tentar inicialmente explicar os
fenômenos das mesas girantes
dentro das leis conhecidas. Assim,
após descartar a fraude como
explicação, tentou enquadrar os
fenômenos observados dentro das
leis naturais, como a eletricidade e
a gravidade. Quando observou que
as mesas girantes davam respostas
racionais, lógicas e cognoscíveis
às perguntas formuladas, abando-
nou a ideia da explicação desses
fenômenos pelas leis conhecidas, e
adotou o raciocínio de que efeitos
inteligentes precedem de causas
inteligentes, dando como expli-
cação uma causa inteligente para
a origem dos fenômenos.
Essa hipótese foi confirmada
pelo próprio fenômeno, que dizia
pela comunicação das pancadas
das mesas serem seres que viveram
sobre a Terra e que viviam em um
plano extrafísico. E isto é realmente
digno de nota, pois geralmente em
qualquer ciência tradicional faze-
mos os experimentos, coletamos os
dados, os analisamos para tirarmos
as conclusões e generalizarmos
estas conclusões na forma de
leis. Com o Espiritismo, foram os
próprios fenômenos, inteligentes,
que se explicaram. É como se as
grandezas, os fatos observáveis e
que estão sendo analisados, como
por exemplo, um composto de uma
reação química ou os neurônios
de um experimento em fisiologia,
dialogassem e se autoexplicassem
para o cientista e investigador.
Surgia assim a ciência espírita, a
primeira ciência que estudou por
métodos experimentais a interação
do plano metafísico com o plano
material. Como nos diz o próprio
Kardec: “... Até ao presente, o
Arismar Léon
estudo do princípio espiritual,
compreendido na Metafísica, foi
puramente especulativo e teórico.
No Espiritismo, é inteiramente
experimental...”. (A Gênese, Cap.
IV Item 16).
Resumindo, podemos dizer
que coube a Kardec a grandiosa
tarefa, realizada de forma exem-
plar e meticulosa de:
- Identificar a natureza do
problema;
- Identificar as entidades fun-
damentais a serem consideradas
como pressupostos para a resolu-
ção do problema e os métodos que
poderiam ser aplicados;
- Conduzir as experimentações
para validar as hipóteses;
- Interpretação dos experimen-
tos e formulação da teoria;
- Identificar os fatos que pode-
riam refutar a teoria.
Deste magnífico trabalho,
surge uma nova ciência, definida
por Kardec: “O Espiritismo é uma
ciência que trata da natureza,
origem e destino dos Espíritos,
bem como de suas relações com
o mundo corporal”. (O que é o
Espiritismo, Preâmbulo).
Hoje, podemos dizer que se
faz ciência espírita?
Certamente que sim. Toda
manifestação mediúnica autêntica,
que interligue o plano extrafísico e
o plano material, com o primeiro
relatando suas condições, sua leis
e as suas inter-relações com o se-
gundo, representa o “experimen-
to” da Ciência Espírita. É como
nos diz Kardec: “A mediunidade
está para a ciência espírita assim
como o microscópio está para o
biologista e o telescópio para o
astrônomo”. A mediunidade é o
instrumento pelo qual a ciência
espírita se realiza. Então, toda vez
que ocorrer pela mediunidade este
intercâmbio entre os dois planos,
teremos a ciência espírita em ação,
de modo que podemos concluir
que a ciência espírita é uma das
ciências em maior e constante
atividade no planeta.
Quais os métodos de análise
para esta ciência que não é tão
palpável ou visual para muitos?
Uma das dificuldades de en-
tender a ciência espírita está no
fato de diferenciá-la das ciências
ditas acadêmicas. Um aspecto
importante da análise das ciências
diz respeito à diferença entre suas
teorias, métodos e os objetivos de
seus estudos. Enquanto as ciências
acadêmicas estudam o elemento
material, suas leis e as consequên-
cias da interação deste com a pró-
pria matéria, o Espiritismo estuda
o elemento espiritual e as relações
deste com o mundo material. A
grande diferença aqui é que este
elemento espiritual é inteligente
e tem vontade própria que inde-
pende da vontade do cientista e
experimentador. No livro “O que
é o Espiritismo”, editado por Kar-
dec justamente para facilitar no
entendimento desta nova ciência,
ele nos diz: “As ciências vulgares
repousam sobre as propriedades
da matéria, que se pode, à von-
tade, manipular; os fenômenos
que ela produz têm por agentes
forças materiais. Não se pode
fazer um curso de Espiritismo
experimental como se faz um de
Física ou de Química, visto que
nunca se é senhor de produzir os
fenômenos espíritas à vontade, e
que as inteligências, que lhe são
o agente, fazem muitas vezes,
frustrarem-se todas as nossas
previsões”.
“A Ciência enganou-se
quando quis experimentar os
Espíritos, como o faz com uma
pilha voltaica; foi mal sucedida
como devia ser, porque agiu
pressupondo uma ana logia que
não existe”. Portanto, embora
estas ciências, as acadêmicas e
a ciência espírita, necessitem de
uma metodologia para os seus
estudos e investigações, a natu-
reza e os objetos de seus estudos
requerem obrigatoriamente me-
todologias diferentes e, ao con-
trário das causas manipuláveis
e palpáveis dos fenômenos das
ciências oficiais, não podemos
manipular os fenômenos obser-
váveis na ciência espírita, que
se dão por causas inteligentes e
independentes de nossa vontade.
Quanto a filosofia nos ajuda
a compreender estes fenôme-
nos?
Há uma área da Filosofia,
denominada Filosofia da Ciência,
que estuda os critérios na demar-
cação entre Ciência e Pseudociên-
cia. Esta demarcação teve início
no século XVIII com filósofos
como Francis Bacon, John Lo-
cke, Kant e David Hume e teve
seu auge durante o século XX,
após o surgimento do Positivismo
Lógico, conduzida por filósofos
e cientistas como Karl Popper,
Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e
Imre Lakatos, entre outros. (Con-
tinua na pág. 10 desta edição.)