Relato 1: O fazendeiro
“Tudo começou há alguns anos, meu pai, na época ainda
vivo, havia me instruído ao manejo do machado e das serras, ele
era marceneiro e eu tornei-me lenhador para dar-lhe ajuda.
Enquanto ele ficava em nossa casa tratando a madeira e a dando
forma de móveis, brinquedos e ferramentas, eu caminhava pela
floresta buscando árvores belas e robustas para levar-lhe.
Comigo caminhava sempre meu amigo desde a mais tenra
infância, Rex era um vira-lata de pelo amarelado e orelhas
grandes, ele gostava de passear comigo e eu muito admirava sua
companhia.
Em uma tarde daquele inverno meu pai pediu que eu
trouxesse madeira branca, pois precisava para fazer uma mesa.
Saímos, eu e Rex, logo após o almoço e adentramos a floresta. O
tempo foi passando e a busca se seguiu por mais horas, não
havíamos encontrado nada quando saímos do outro lado da
floresta, pela primeira vez desde que comecei esse trabalho. Ali
havia um grande milharal.
— Vamos, garoto.
Chamei meu cachorro, mas ele não ouviu, estava de orelhas
em pé, observando a plantação como um caçador que avistara
uma presa. Novamente o chamei, dessa vez ele me atendeu e
fizemos o caminho de volta, por sorte conseguimos encontrar
uma árvore de madeira esbranquiçada, na época achei ser um
eucalipto, mas era jovem e não tinha o conhecimento que tenho
hoje, agora sei que não o era. Pouco após o anoitecer chegamos
em casa, o cheiro do ensopado de minha mãe estava delicioso e
meu pai, sentado em sua cadeira de balanço, estava esculpindo
um pequeno pássaro, talvez um brinquedo para alguma criança.